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domingo, 1 de maio de 2011

Dia do Trabalhador ou Da Crise que se Repete ou De Quem não se Sente não é Filho de Boa Gente...


NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO...

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).

E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

Jorge de Sena
(Santa Bárbara, Fev. 1976),  in Quarenta Anos de Servidão (1979)

ouvir o poema a seguir...



... E não me venham dizer que era o Jorge de Sena que tinha mau feitio... que  o raio  da crise  não sente nem é filha  de  (boa)  gente...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Revolução no Egipto

Quando se amordaça o sonho,

a revolução espreita...

e, ontem, aconteceu...

sábado, 25 de setembro de 2010

A crise ou do "gato branco na neve" ou do "sincelo" ou...

Passou-se quase 1 ano e eu às voltas com a "crise" em Portugal: escrevi, escrevinhei, seleccionei textos e poemas e que fale o passado dos que sabem por mim, que eu não consigo desafectar-me do espírito e da letra da coisa e como diz e dizia o povo sobre esta e outras crises "tantas vezes vai o cântaro à fonte que lá deixa a asa" e que cada um faça seu um significado possível desta máxima, aforisma e quase provérbio que nós, afinal, falamos sempre e só de nós, daquilo que nos encanta, sublima ou oprime (olha a crise já instalada na trilogia anterior: devia ser dita / escrita de trás para a frente e adeus crise!...)
Recuso-me a dar mais linguagem à dita cuja, que já tem demasiado tempo de antena nos telejornais, jornais e outros que tais instalados à mesa do café ou aos bons dias com que nos saudamos logo pela manhã já sabes que, leste, ouviste?... Ciao, então, beijinho, beijinho... tem um bom dia!...

Ou seja: já é Outono e uma aragem fina e ainda endorminhada pela noite anterior acorda-nos para a saudade do sol que não tarda a aparecer macio e leve pela manhã. E quando lhe pergunto interiormente pela crise sobre que devo escrever no meu abandonado blogue, só me devolve a imagem de um "gato branco na neve"...ou de um "brouillard sur la plaine d'Alsace"!...
Como já não tenho nenhuma das 2 imagens, vou utilizar o "Sincelo", fotografia da Carolina, no Inverno de 1993 em S. João da Pesqueira e que traduz bem o que eu gostava de deixar... um símbolo.

N. B.:"
Sincelo é um fenómeno meteorológico que acontece em situações de nevoeiro aliado a uma temperatura abaixo de 0ºC e resulta do congelamento das gotas de água em suspensão, quando estas entram em contacto com a superfície. Quando sob um nevoeiro muito denso, pode produzir o mesmo efeito que uma nevada e ocorrer a precipitação de cristais de gelo em pleno nevoeiro, sem haver nuvens no céu. Não deve ser confundido com geada. A película de gelo forma-se em qualquer superfície que contacte com a neblina, dando às folhas e caules das árvores uma aparência vítrea
." in Wikipedia

(há um problema com a imagem: é uma má foto da foto atrás referida. Se a conseguir, trá-la-ei para aqui. Fica o possível)

domingo, 15 de novembro de 2009

Face Oculta ou de como Um Lavrador tinha um Cão e a Mãe...

Na minha infância, deram-me como entretenimento e educação um exercício de português que nunca mais esqueci e que muito me tem servido pela vida fora; sem a pontuação correcta, o texto é um absurdo semântico, uma gargalhada feita frase: O lavrador tinha um cão e a mãe do lavrador era também o pai do cão
Tiveram de me dar a solução, que a tanto não chegava o meu entendimento / educação de criança. Mais tarde, aprendi a pontuar: quando percebi que a frase era uma estrutura lógica que reproduzia um pensamento arrumado... Desde aí, percebi que a chamada "gramática" era a "matemática da língua" e fui-me aplicando, treinando e divertindo com a infinidade (e provável infinitude) de sentidos que a nossa língua potencia. Gosto que Fernando Pessoa tenha escrito "A minha pátria é a língua portuguesa", mas gostaria que essa sua característica do Saber lhe conferisse também o Poder de nos dirigir... Por outras palavras, a face oculta deste verso de Pessoa podemos encontrá-la naquele outro de Camões onde, já aborrecido com os seus contemporâneos pela falta de cultura, vociferava que "... quem não sabe arte, não na estima" (e entenda-se "arte", claro, no sentido geral de "cultura")...
Como cidadã, aflige-me que a advertência de Camões não seja levada mais a sério! A menoridade a que a nossa língua aparece esporadicamente remetida, quando oriunda de altas instâncias do poder, faz-nos temer pelo estado da Nação, que corre o risco de mergulhar mais uma vez numa "austera, apagada e vil tristeza"...

E, já agora: o lavrador tinha mesmo 3 cães (o cão de quem se falava, mais a mãe e o pai desse cão)... Afinal, não se pode saber tudo e de tudo, mas há sempre alguém que nos ensina a encontrar a solução ideal ou mesmo correcta...

E agora dois exemplos desta "face oculta" da língua (ou da Nação de Camões e da Pátria de Pessoa?)

"...suspenção e não renuncia porque tal poderia ser entendida com assumpção de culpa."

"Caras e caros colegas
Faz hoje 4 Anos.
Tem dias que parece que o tempo se emaranhou nas coisas e nas pessoas.
Tem outros dias em que tudo parece ter ocorrido ontem.
Contudo há algo que o tempo tem os limites certos:
-Foram quatro anos bons de amizade, de solidariedade e de prazer de poder contar com o vosso profissionalismo e apoio."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pós-autárquicas (Romanos, Gauleses e Lusos)

Cada um é como cada qual e eu não sou uma fã dos Romanos: deve correr em mim muito sangue celta, aparentado do Obélix (dói-me ver derrubar "carvalhos", rebolo-me a rir e a brincar com os "Ideiafix"...) e do Astérix (a ver se Panoramix me arranja uma "poção mágica" para combater os Romanos...) e de Viriato e de Sertório !.... A verdade é que, apesar de ser uma fã de Itália, não sou fã de Roma: aquela monumentalidade remanescente de um império de Césares atrofia-me o raciocínio, retira-me a linguagem espontânea e transporta-me a um mundo onde o poder é arrogância, a força é brutalidade, o riso é desnorteado e nervoso e a imaginação é delírio de grandeza a soldo de um extermínio progressivo da diferença. Em consonância com a monumentalidade da Roma antiga, o trânsito caótico de hoje em dia desconhece as cores dos semáforos ou qualquer regra que não seja a do "salve-se quem puder"!... Reafirmo que sou uma fã de Itália (Florença, Veneza, Ravena, sentido estético apurado e inovador que sempre me surpreende e desenha sorrisos), mas daquela veia "imperial" dos Césares temo-me como se devem ter temido todos os povos que os Romanos "romanizaram"... E a verdade é que ainda estou para perceber (ou não quero dar linguagem às minhas suposições) a razão porque, democraticamente, a Itália elege para o Parlamento a Cicciolina ou para o mais alto cargo da Nação o Berlusconi (que faria grande êxito numa ópera bufa ou no teatro burlesco com o nome de Burlesconi)... Encarar a política com "muito riso e pouco siso" dá, às vezes, nestas coisas!... Por cá, encaro com apreensão a "floresta de auto-estradas" que vai criando desertos a perder de vista e a estranha eleição (por democrática e escorada em "floresta de licenciados"), de autarcas a contas com a justiça nacional... Entristece-me e confrange-me ouvir das razões invocadas para estas preferências (ex: "os outros - os bancos, etc. - são ainda piores", como se não estivessem a falar dos mesmos) e do alardeado estado de espírito desta estranha figura de "réus vencedores": sempre estão "tranquilos", à espera que "provem" o de que os acusam (nada como ir para o poder, onde é mais fácil influenciar a legislação)... À conta deste "bem-estar" dos Césares, os Astérixes, Obélixes, Viriatos, Sertórios e outros que tal, vão sendo silenciados porque "intranquilos" e acusados de calúnia, perseguição e cabala (o que nunca se consegue "provar")... O que vai valendo são os "Gato Fedorento", que sempre têm uma linguagem de "verdade humorística" que vai dando voz a todos os que, silenciosos, temem transformar-se em "redutíveis Gauleses" ou "atraiçoados Lusitanos"...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Pós-europeias


É um afã mediático pós-eleitoral: ganhou a chamada esquerda, mas a direita não se resigna, já que ganhou na "Europa"... O que me vai afligindo é que a leitura que fazem dos resultados, mais do que uma reflexão sobre o que é necessário mudar, implica uma estratégia sobre como não deixar a dita esquerda chegar ao poder. Por mim, tanto voto no que eles chamam direita como na sua esquerda, habituada que estou já a ver estas palavras mais como um simulacro de ideologia para esgrimir ataques pessoais (quase sempre ressabiamentos, temores...) do que um conjunto de valores que têm de ser sistematicamente avaliados na prática para corresponder à dignidade do ser humano na sua relação intrapessoal, interpessoal e universal (entenda-se com o Universo, também no sentido científico). Por isto, o que me atrapalha é que, ao ver o afã com que a chamada "direita" quer abraçar o poder em consonância com outros países europeus, não consigo deixar de vislumbrar um inevitável crescimento futuro dos impostos para pagar os sucessivos "investimentos" que têm servido uma "cultura" do ócio, da competição e da desvalorização social do trabalho... Classe média? Qual? A que trabalha?... Muito perigoso: a futura (já no terreno) classe média pode ser a dos excelentes alunos com excelentes formações, mas completamente subordinados e empobrecidos economica e socialmente frente aos seus colegas de curso, irmãos e amigos que, entretanto, ascenderam a "cargos de chefia"!... Neste cenário, facilmente se concebe esta classe média a trabalhar... para QUEM?
(já agora... não, não falo ainda das nossas escolas... sai ainda mais amargo e estou muito farta de algumas palavras e expressões e com muito receio de quem as diz: "produtividade", "estou tranquilo", "provem...", etc. and so on... pensando bem, daqui a pouco já estou arrependida de escrever isto. Para já, fica!... Não há medo?... principalmente de pensar!...)