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domingo, 28 de dezembro de 2008

A morte saiu à rua...


Luto por uma pedagogia que não se esqueça que os rios susurram, que as aves gritam..., escreveu o professor, antes de encontrar a morte que saira à rua... Está num "post" do blogue Profavaliação, de que aqui deixo o link, bem como o da canção do Zeca Afonso que esse texto me fez recordar. Sobre o resto, não falo. Está tudo no texto de Teodoro Manuel e na letra da canção do Zeca Afonso.
http://www.profblog.org/2008/12/nossa-pedagogia-esqueceu-que-os-rios.html

http://www.youtube.com/watch?v=2yZkC3YCU20

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O que é um Professor?


Eduardo Lourenço define de uma forma simples e definitiva (para mim) o que é um Professor: o paradigma do cidadão útil e consciente de uma sociedade.

Numa altura em que tanto se fala deste grupo social é altura de o (re)definir, para que se saiba do que se fala quando se fala. E não há nada como ouvir quem está (de) fora, quem sabe, quem (se) pensa e quem não tem quaisquer interesses nas polémicas recentes, a não ser o de pensar o mundo e nos facilitar a vida pelo exercício do seu pensar. Como professora, fiquei-lhe mais uma vez agradecida por esta prenda de Natal.

Obrigada pela prenda, querido Professor! Quando for grande, também quero ser assim...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Avaliações simplex de cotas...

Às vezes passa-se uma vida à procura da simplicidade (perdida?)... Tome-se uma criança em condição natural (amada e protegida pela "mãe") e surpreendamo-nos com a rapidez e beleza das suas aprendizagens: a gatinhar, andar, correr; a balbuciar, palrar, falar... Disse falar?!... É aí mesmo que quero chegar: não há criança que se não expresse em "poesia", com "metáforas" de descoberta permanente da necessidade de comunicar com quem a rodeia (a ama, claro!) e não há criança que se não revele "cientista": porquê, mas porquê...? Pobre professor-"mãe"! Que canseira tantos porquês e quanta admiração pelas descobertas que essas perguntas anunciam!... A "simplicidade de alma" é, por vezes, "chata" para quem "não está nem aí"!... Tenho revisto na RTP2 algumas conversas com o professor Agostinho da Silva e sinto-me reconciliada com o mundo! Tão perto e tão longe dele, mas... mesmo quando longe - o mesmo emaravilhamento pela "simplicidade" das soluções que apresenta: um adulto devia ser sempre um "sábio". Como ele. Quando eu for grande...

(mais prosaicamente e aqui que ninguém nos ouve: aqueles "sistemas de avaliação" muito complicados, muito complicados, tão complicados que apetece dizer logo "olhe, falou tão bem, que não percebi nada!", só podem estar errados! Continuo fiel ao Chomsky e à sua "Gramática Universal": sistema simples, capaz de explicar todas as línguas conhecidas, mas - claro! - com uma capacidade descritiva dependente ainda e muito e talvez sempre de cada "professor"... O que parece complicado pode ser bem simples... se houver uma "mãe", um "professor", um "sábio", uma "criança" que no-lo apresente com "amor" (ou sentido de "serviço", que é igual...), para sermos felizes (porque precisamos, gostamos, vai ser uma surpresa, nos vai convocar o silêncio ou a linguagem da "poesia", que pode ser um xi-coração bem apertadinho, bem apertadinho, obrigada, amo-te...).
Outra vez prosaicamente e aqui que ninguém nos ouve, aquela questão das "quotas" por mérito para professores, para mulheres em cargos políticos, etc..., parece-me um grande absurdo! Mas pode haver "quotas de mérito", antecipadamente subordinadas a percentagens?!... Então, não há mérito ou está-se a definir o "mérito", complicando e adulterando o que toda e qualquer criança sabe o que é... Mérito não é "mérito", é um somatório de "cargos", de...., 30, 40, os que forem precisos cursos de formação das "CEEs", etc., o que "dá jeito" às "finanças" da "nação"!!!... Porquê "mulheres" na política? São melhores que os homens? Querem esses cargos? Porque não "pretos", "amblíopes" ou outras minorias "silenciosas"? Como cidadã, nunca fui melhor "servida" por mulheres: se às vezes o fui, foi porque quem me "atendeu" estava "ao serviço" e não "a servir-se" de um "cargo"... Não, não gosto destas "quotas": "quotas de cotas")

E agora uma história "exemplar" de professores "cotados" (quotados?):
perante uma tese de mestrado a que tinha dado "Bom", a arguente quis justificar à mestranda o porquê de não atribuição de nota máxima: "O problema principal é que se valeu da sua facilidade de escrita para escrever uma tese que se lê como um livro... vê-se que não demorou tempo, que não analisou o suficiente...". Admirada, a aluna /mestranda/mestre só conseguiu balbuciar: "Mas a Professora quer que lhe traga as 500 páginas iniciais da tese que tenho em casa, onde está feita toda a análise que aqui lhe sintetizei em 100 páginas?!... Foi 1 ano para redigir 500 páginas de análise e mais 1 para sintetizar e simplificar a linguagem, em 100..." Resumindo e concluindo, a tese estava simples, mas não simplex e por isso não entrava nas quotas dos cotas... Sim, que às vezes a gente também se chateia!... Sobre "avaliações simplex" e "quotas de cotas", estamos conversados... Vou arranjar umas ilustrações simples e carinhosas ... Quando eu for grande...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Oh Portugal, hoje és nevoeiro..."

Quando era miúda, adorava este feriado: era "Dia da Mãe". Depois que foi transferido para o último domingo de Maio, o 8 de Dezembro foi ficando esvaziado para quem não tem uma prática católica, o que é o caso. Acontece que acabo por ler jornais e etcs e tais e quando dou por conta já estou quase a tiritar num inverno de alma: “jogos estratégicos”, “paraísos artificiais”, novas "dinastias" ... É melhor não explicitar nem especificar mais nada: peço emprestada a palavra ao poeta e lá desabafo um pouco.

Os medos

É a medo que escrevo. A medo penso.
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo
A medo me renego, me convenço

A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.

A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.

A medo guardo confissão, segredo.
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo, mudo.

José Cutileiro Os medos, in Versos da mão esquerda, 1961.


ROMANCE DE REI HIPOTÉTICO

Na Tichunlândia há um rei
(se não há, podia haver)
que tem um iate de oiro
para nele se meter;
milhão e meio no bolso,
vinte milhões a render;
cem donzelas das mais lindas
pra amar a seu bel-prazer;
e um cadillac espanhol
(se não é, podia ser).
Muito mais tem esse rei,
muito mais podia ter.
Quem vai à frente da fila
não espera pela vez
e faz do tempo um cavalo
que monta conforme quer.
Dizem os bicos redondos
que andam na órbita dele
que tem uma inteligência
(se não tem, podia ter)
que penetra os escaninhos
mais recônditos do ser.
Milagre do sangue azul!
Oh prodígio do saber!
Oh fonte de sapiência
que não cessa de correr!
Um dia vieram reis
(mais viriam) para o ver,
estrela de ânsia na testa,
ansiosos de o conhecer.
Que o sol nele se desfolhava?
Como conseguia ele
a paz nas suas cidades,
há trinta anos e um mês?
Que serafim o giava?
Como consegfuia ele
não ter dentro do seu reino
um inimigo sequer?
Vejam ora o sucedido
(ou podia suceder).
Num opíparo banquete
(desses que está sempre a haver,
com ideias luminosas,
sem nenhuma luz se ver)
o rei que nunca aparecia
resolveu aparecer.
Oh! - disseram os que enchiam
o salão de lés a lés.
Cem polícias ali estavam,
sem pingalim nem boné,
mas um volume no bolso
que bem se sabe o que é.
Na boca de cada um,
pendurado um lamiré
e nos olhos todo o olhar
felino, fino do chefe.
Ninguém podia explicar,
ninguém podia entender
que, em duzentos olhos, só
um olhar pudesse haver.
De repente no salão
que havia de acontecer?
Como se fosse um relâmpago
ou o diabo por ele,
fez-se ali um jorro azul,
e começou a azulescer
e ficou tudo azulado
os reis e roques até.
Mil pessoas aí estavam
que ganhavam nova tez.
Zul, azul azulejava;
"Sobeja cousa de veer"!
Só no fundo do salão,
com os pulsos a tremer,
um jovem roía as unhas,
não parava de roer.
"Que faz aí, seu intruso?
Como se pôde atrever,
sem as vestes nupciais,
a quedar neste banquete?
Rua!, rua!, seu intruso!
Que descaramento é esse
de nem uma flor azul
ter ao menos no colete?!"
Prenderam-no, açoitaram-no,
deram-lhe fel a beber
e uma cruz de sete metros
mandaram logo fazer.
Entretanto o rei fulgia
e os demais, tal como ele.
E as estrelas não caíram
e o mundo não se desfez
e no firmamento o sol
prosseguiu no seu arder.

Este é o romance do rei
(irreal, está-se a ver).
Quem quiser tire a lição,
tire a que lhe convier.

António Cabral, in Quando o silêncio reverdece

Como dizia Fernando Pessoa, depois de lamentar o "nevoeiro" em Portugal: "É a hora!..." Enquanto sim e não, e agradecendo ao poeta esta chamada a uma outra realidade, decido ir ver o sol lá fora e passear um pouco nesta bonita tarde de fim de Outono. Lá fora é castanho e ouro e muito verde ainda... "É a hora!"

sábado, 6 de dezembro de 2008

Vieira avalia Pinóquio...


"Quem em tudo quer parecer maior, não é grande."

"Os modos de guerrear são tantos, quantos tem inventado o amor para a defesa própria, e o ódio para a ruína do inimigo."

"Posto que os juízes sejam rectos, ou o queiram parecer, é tal o enredo de testemunhos falsos, induzidos, e subornados, ou com o dinheiro, ou com o ódio, ou com o temor, ou com a dependência, ou com a lisonja, ou com tudo, que a mentira é a que vence e a falsidade a que triunfa."

"Se nos vendemos tão baratos, porque nos avaliamos tão caros?"

Padre António Vieira, Sermões

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Avaliação de Professores e "Legitimidade Democrática..."


Isto é um problema!... Eu que até gosto do ex-presidente Sampaio, tive hoje de o ouvir defender o Ministério e a sua actuação com o argumento da "legitimidade democrática" que pôs o PS no governo. À laia de desabafo, há duas perplexidades (preocupações?) que me obrigaram de novo a escrever:
- Será impressão minha, ou quando grandes dirigentes do nosso país começam a trabalhar no "estrangeiro" ganham uma nova forma (mais conciliadora de "Deus e Diabo em comunhão") de análise do processo político em Portugal? Acredito que "lá fora" seja outra a realidade, mas um pouco mais de tempo de permanência em Portugal e não creio que se aguente durante muito tempo esta "bonomia de análise"...
- Será cansaço e receio meu se este argumento da "legitimidade democrática do voto" permitiu por exemplo o acesso do nazismo ao poder e a sua manutenção (contra aqueles, inclusivé, que o tinham legitimado pelo voto)?...

(E, por favor, chega de especulações e mal-querenças, que eu não chamei nada a ninguém, etc., etc.... Que cansaço, todos esss atropelos de linguagem e raciocínio que por aí se vão fazendo...)

- Não decorrerá da "legitimidade democrática do voto" que, quando os eleitos, por se afastarem dos princípios ideológicos que os consagrou no governo da Nação, são "democraticamente" chamados à atenção (por manifestações, por exemplo) devem democraticamente recuar e, em nome desses princípios e de uma "pedagogia de poder" social, alterar as suas propostas de governação? A não ser assim, correríamos o risco de, um dia destes, sermos governados por uma "ditadura democraticamente eleita" e há que aprender com a História, em nome da Humanidade.

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=376406&tema=28

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Avaliação de Professores - IV





Eu também tenho o meu "modelo de avaliação" preferido: o mais simples, o que mais confia nos professores, o que confere identidade a cada uma das escolas, o que prevê a "avaliação" rectificativa do funcionamento da escola, sempre que os seus resultados revelam problemas de aprendizagem nos exames a nível nacional; o que não pune, mas resolve, incentiva e dá condições; o que incentiva a criatividade, base do verdadeiro sucesso na vida, a todos os seus intervenientes... o que já provou - e todos os estudos o indicam - ser o de melhores resultados: o finlandês.



Não há professor que se não depare ao longo do seu percurso profissional com a subjectividade e falibilidade de todo e qualquer processo de avaliação. Como afirmou Leonardo da Vinci: "Não há coisa que mais nos engane do que o nosso juízo." (se é difícil avaliar alunos, como será avaliar colegas com maior e/ou diferente formação científica, maior experiência profissional?... ). É caso para nos perguntarmos com Dante Alighieri, no seu "Paraíso": "Quem és tu que queres julgar / com vista que só alcança um palmo, / coisas que estão a mil milhas?"





N. B. E quanto a professores de "Bom", "Muito Bom" e "Excelente", temo que os critérios sejam semelhantes aos que presidiram à selecção de professores titulares. Pergunto-me como e por quem seriam hoje avaliados/classificados professores como Vergílio Ferreira, António Gedeão ou Sebastião da Gama, por exemplo...

domingo, 16 de novembro de 2008

Avaliação de Professores - III


Finalmente, arranjei disposição para procurar informações sobre o sistema de ensino finlandês (sempre referido como o de melhores resultados) e o chileno (em que a actual e polémica avaliação de professores parece basear-se). Vale a pena confrontar os resultados da educação nos 2 países e a carreira dos professores em ambos (e a respectiva acaliação, claro!). Não há "avaliação de desempenho" na Finlândia... será que não há avaliação?!... Claro que há ( e mais não digo)... quanto ao Chile, vale a pena ver as políticas desastrosas aí seguidas, com consequências desastrosas para a Escola Pública e a Educação naquele país...


Perguntar não ofende:

1. mas afinal dão-nos como referência os resultados escolares da Finlândia e em vez de seguirmos a sua política, vamos "importar" a terceiro-mundista política chilena, com resultados comprovados de insucesso e péssimo "tratamento" dos docentes?!...

2. mas afinal regredimos agora para Esparta, onde os recém-nascidos doentes eram atirados para a morte dos muros da cidade para o seu exterior? Que é isto de penalizar professores e alunos que adoecem? Os doentes, agora, são "marginais" da "saudável" empresa pública em que o Estado se está a transformar?!...


N. B. (apetece dizer umas verdades: com tanto sofrimento infligido à sociedade - vidé desemprego, desautorização crescente das classes de professores, médicos e juízes, política ambiental - há mais que razões para se adoecer, infelizmente!). Que de uma vez por todas se entenda em sentido denotativo (e sem o humor desbragado e violento que esta política gera) que será bom que o Estado "nos trate da saúde".




sábado, 15 de novembro de 2008

Avaliação de professores - II


Tanta coisa para dizer e tão pouco o que sinto que, agora, devo escrever. Fica a referência a 2 intervenções de ontem, na TVI - jornal da noite -, que me deixaram mais calma e até acompanhada. Obrigada à Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária D. Maria, de Coimbra e a Vasco Pulido Valente. Ambos explicaram excelente e sucintamente o que se está a passar neste momento com a luta dos professores (mais focalizada na avaliação), nas entrevistas que deram à jornalista.
Acima de tudo: "Pela Dignidade da Profissão Docente"

N. B.
Estes nossos políticos não terão passado pela escola pública? Não têm filhos, sobrinhos, conhecidos, que tenham passado por lá? Todos frequentaram Universidades privadas? É que me indigna a falta de respeito para com aqueles que os formaram academicamente... Profissionalmente, já não sei, que "isto" decorre mais da "avaliação de desempenho", como sói dizer-se. Eles lá sabem como progrediram... Às vezes receio que, a ser coerentes com uma qualquer teoria científica em que acreditam, os legisladores façam tábua rasa de todo o seu passado e - cegos, surdos e mudos - às vozes que os alertam, sejam "fiéis" à sua nova "religião", esquecendo que a ciência é uma verdade até prova científica em contrário e que tem de estar sempre ao serviço da "Humanidade". Um dos "slogans" bem elucidativos das preocupações que devem nortear o legislador e das consequências desta legislação está bem patente num aflitivo e verdadeiro "slogan" destas manifestações: "Deixem-nos viver!". Visto a camisola do ensino público, a quem devo muito do que sou e aos muitos professores que aí me formaram, incentivaram, testaram e avaliaram para, no fim, me dizerem: "Vai viver e sê feliz"!... Este, sim, foi o grande Objectivo que eles alcançaram comigo, mesmo que, nunca o tenham assim definido, nas suas práticas lectivas. É que a Escola é a Casa também.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Avaliação de professores - I


Ontem, na Sic notícias, pelas 23 horas, assisti a um debate entre 3 ex-ministros da educação (Fraústo da Silva, Marçal Grilo e Júlio Pedrosa) e encontrei finalmente alguém que fala de avaliação da única maneira que sempre a entendi. Perguntava Fraústo da Silva (que, talvez por estar mais afastado no tempo destas lides ministeriais, tem uma leitura mais desapaixonada, racional e humana): - "Mas quem é que não gosta de ser avaliado?..."

Bastou-me esta pergunta para de repente perceber a distância a que nos encontramos da escolha de uma carreira por vocação e da saúde e felicidade que se deve encontrar no trabalho que realizamos: já longe do "tri-paliare" latino (etimologicamente: castigar com o "tri-palio", um instrumento de tortura, feito com 3 paus), o verbo "trabalhar" assumiu no tempo um sentido de "serviço", socialmente dignificante e psicologicamente compensador (desde que assumido por "vocação"). E quem tem a felicidade de assim "trabalhar", gosta de ser "avaliado" pelo "serviço" que presta.

Eu continuo a achar que os professores sempre foram avaliados (academica e pedagogicamente, em cursos, estágios, acções de formação...) e que esta toleima cega com a "avaliação de

desempenho" mascara a "visão empresarial" do ensino e, pior, da Educação. Uma escola não é uma fábrica, os que lá trabalham não são parte de "uma linha de montagem" onde se produzem milhares de "carros" com variantes tecnológicas , estéticas e económicas adaptadas às "auto-estradas do consumo"... Caiu em desuso falar do objectivo (ou finalidade maior da educação?) que é: "formar cidadãos"... Educar para a cidadania é educar para a participação social lúcida e responsavelmente. E essa tarefa maior do professor parece estar arredada da consciência desta "aldeia global" em que se transformou a "sociedade mediática, stressada e punitiva" em que se vive ultimamente. Lançam-se boatos (mentiras) sobre uma classe social, desconsidera-se o seu "trabalho/serviço" (qualquer um sabe de Educação e Ensino, mesmo que não saiba escrever: é só ver os "comentários" às notícias na internet...), desculpabiliza-se os "enxovalhos" que lhe são feitos e fazem-se-lhe outros (esgrimindo argumentos "de rua" e apelando à "avaliação contínua" dos professores pela "rua"...). Como diz o povo "Vê-se o argueiro no olho do outro, mas não se vê a tranca no próprio"... E depois chovem "ovos" na Autoridade!...

Não há maior tristeza do que não sermos justamente avaliados pelo nosso "serviço" e... de "homenagens póstumas" devia a sociedade estar farta. Gostei de ouvir o Professor Fraústo da Silva: falou pouco, como se a sua razão viesse de um outro tempo e sentisse que não há ouvidos para a sua Voz.

E porque a cultura nos torna humildes e este é um combate que todos, humanamente, temos de travar, aqui deixo a reprodução de um cartaz desta manifestação de professores: quem o souber e quiser interpretar aí encontra também o que é o subtil exercício de ser professor. Obrigada a quem o concebeu e... ao professor Fraústo da Silva (que ainda há muita gente com "2 ouvidos e uma boca") e que agradecem aos seus Professores o nunca terem levado com "ovos" pela "rua"...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Bullying (assédio) moral / Dia das Bruxas



Diz o roto ao nu...

Se um dia o simpático dromedário decide ser "marreco", imagine-se o que acontece ao outro (e lá fica em risco de extinção!...) ...

Como hoje é "Dia das Bruxas", lá falei de uma bruxaria... A ver se é só hoje...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O "Olhómetro"



A educação aprende-se em casa (a escola e o país aprofundam essa aprendizagem). Aprender, sempre.

Quando era miúda, ensinaram-me que se não lê o correio de ninguém, que se tem direito a um "diário com chave" e até a uma "caixinha com chave" para arrumar o que era da minha inteira privacidade. Cresci assim e continuo firmemente fiel a estes princípios básicos. É educação e é civismo, o que vem a dar no mesmo. Isto de ler os e-mails dos outros ou de controlar o telemóvel dos outros, etc., etc., só o entendo nos casos que a lei enuncia (veja-se, a propósito, o artigo do juiz Rui Rangel em http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=87EC397A-42D6-4C0D-85B0-D2CFA724468A&channelid=00000093-0000-0000-0000-000000000093 )

Veio tudo isto a propósito da ordem de "rastreio" dada pela Inspecção-Geral das Finanças aos e-mails dos seus funcionários... Acho um abuso que os mesmos não tenham sido avisados (a não ser que estejam impedidos de usar o computador do trabalho para enviar e-mails pessoais...) e, além do mais, não acredito que "quem as faz" as "faça" assim. Os "espertos" sempre o são à revelia da "inteligência" e das duas, uma: ou a sociedade pune a "esperteza" até ao limite da dissuasão, ou a premeia, fazendo "vista grossa" aos sinais exteriores de "esperteza". Se decide, à revelia da lei, "vasculhar" da privacidade de cada um, dá um péssimo exemplo de "deseducação" e gravosa "falta de civismo" que, me parece, também entra nas malhas de lei. Se o exemplo não vem "de cima", há-de vir de onde? Que se me perdoe, mas não pude deixar de pensar numa série de "hackerzinhos" informáticos a ocupar lugares cimeiros de decisão, que - já alheados do mais elementar direito à privacidade de cada cidadão - decidem utilizar o seu saber informático para fazer o papel que, antigamente, julgava atribuído à Polícia Judiciária!... Como cidadã, preferia que fosse esta ou outra força semelhante a fazer esse trabalho, em silêncio e recatadamente, e ficar-lhe-ia eternamente agradecida, porque estava a contribuir para a minha saúde e educação cívica. Muito se fala de George Orwell, mas parece que bem pouco se ligou ao seu legado "literário" (não dizem que os "artistas" estão sempre à frente, no tempo? Eu acredito)... Isto de haver um "big brother", que a "low cost" nos trata da saúde com o seu cortejo de "hackers", é...(rai's parta o inglês, mais o que isso já parece significar em termos de identidade nacional)...


Vá lá, pronto!... Fico sempre "chateada" quando falo destas coisas, mas deve ter sido da ventania e das "marés de emoções" em que, hoje em dia, se não damos conta, acabamos todos por mergulhar... E os sentimentos, caraças, e dos sentimentos?!... Estão, esses sim, em silêncio? São lugares-comuns de linguagem panfletária?... Irra, para o que havia de dar o "olhómetro"!... E eu que tanto me ri com esta expressão quando a ouvi pela primeira vez (ainda era o "olhómetro" do artista, que brincava até mais não suster a gargalhada!...)

domingo, 26 de outubro de 2008

Avaliação de Professores


Primeiro, pensei que ouvira mal; depois, achei que "eles nem as pensam!"; mais tarde, achei que "não sabem do que falam" e, claro, achei que alguém iria repor a verdade... Pois bem, talvez alguém o faça, mas não tenho tido a sorte e a saúde de o ler / ouvir... Por isso, de vez em quando, oiço estas vozes interiores "entre aspas" e, quando dou conta, estou irritada. Olha, hoje falo... e pronto!

Os professores nunca foram avaliados?!... Só agora é que vai haver uma "avaliação de desempenho" destes profissionais? Mas afinal, quem lhes conferiu nota académica senão as Universidades?...; nota profissional, senão os seus "pares" delegados à profissionalização e/ou Estabelecimentos de Ensino Superior?; nota nas "acções de formação", senão professores destacados para o efeito? Como eram eles hirarquizados nas escolas? Só pela antiguidade? Então e as avaliações científicas e pedagógicas com que concorriam serviam para quê? Ai, não era só pela antiguidade, não! Este era um dos parâmetros para "avaliar" os professores!... E quem anda por lá, sabe que é assim.

O problema é de fundo e sobre ele muito se fala... O que mais me preocupa, enquanto cidadã, é o desprestígio com que se tem anatemizado toda uma classe profissional, ou seja, o desrespeito pela "Educação", em si mesma. E tanto assim é, que agora se pretende hierarquizar os professores, em concurso, não pela sua classificação académica e pedagógica (científica, portanto), mas pela "avaliação de desempenho"... Tendo em conta o silenciamento crescente a que foi votado o Ensino Secundário (2 horas de redução para utilizar na preparação de aulas deste nível pré-universitário, para quê?!...), imagino como deve andar o Ensino Superior!... Lembro-me bem, que foi por razões idênticas que apareceu o SneSup...

Que se me perdoem os muitos hiatos explicativos, mas não vale a pena entrar em detalhes...
Por esta lógica legislativa, vamos ter médicos avaliados pelo número de doentes que "vêem" e "salvam" e juízes avaliados pelo número de processos que "despacham" e "despenalizam". Dito assim, parece absurdo. Oxalá o seja! Educação, Saúde e Justiça... "Estado Social"?!...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Presente Homófono


O problema do Diferente

é que o querem Deferente.



Coitado do Diferente,

que só sonha na Diferença

o ser que o sonha...


e quando se dá conta

- na homofonia caótica do "stress" diário que o afoga -

dói-lhe um (d)ente

e vê

que só Ninguém vê o Diferente,

pois Todo o Mundo é Deferente

sempre, sempre a Todo o Mundo...

(e sempre, sempre, em Algures,
que Nenhures não dá dinheiro
e... Ninguém é tão Diferente...
pois...)


E lá se lhe foi o (d)ente!...


(Deve ser por isso que há tanta homenagem Deferente - e póstuma! - ao Diferente!...)

L. A.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Porque gosto de Histórias para a Infância...


Fica para outro dia uma reflexão sobre um tema que tanto me tem acompanhado ao longo da vida: a relação entre Religião e Ciência... Cada um de nós tem as suas experiências e eu não sou excepção. Que a Religião é "analgésica" é um facto, mas que o Amor, a Paz, um Final Feliz também o são, é um facto também. E quem nunca reparou nisso, é porque ainda estava desatento...

http://jornal.publico.clix.pt/default.asp?url=%2Fmain2%2Easp%3Fdt%3D20081020%26page%3D4%26c%3DC

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Capital (ismo) humano ?



Bem tentei, mas aflijo-me quando tenho de falar do "ser humano" em termos de "capital". Embora sorria no dia-a-dia com as metáforas que a nossa saúde mental e física vai exigindo, entristeço por reflectir o presente, no presente (as emoções gostam da rudeza das palavras e só os sentimentos, mais constantes e fortalecidos pelo tempo, nos ajudam a generosidade possível da linguagem).

Tudo começou pela leitura do jornal, de manhã, e acabei por andar todo o dia a distrair a dificuldade que sinto em falar sobre estes assuntos. Em conclusão, fui à net e só aliviei um pouco depois de "postar" a Natália Correia e a sua (nossa, também! Obrigada, Natália...) "Queixa das Almas Jovens Censuradas".

(N. B. A ver se não me esqueço de dar espaços no poema, para separar as estrofes... Agora, é melhor ir jantar!...)


"Por cá, aliás, como diria Manuel Larangeira, um grande intelectual português da transição do século XIX, o pensamento representa já um capital negativo e a inteligência um capital inútil. Pois é...
Eduardo Dâmaso, Director-Adjunto" (do Correio da Manhã, 20 /10/2008; cores nossas)




QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete

E uma alma para ir à escola

E um letreiro que promete

Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário

Que tem a forma duma cidade

Mais um relógio e um calendário

Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim

Para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos o prémio de ser assim

Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu

Para tirarmos o retrato.

Dão-nos bilhetes para o céu

Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos

Com as cabeleiras dos avós

Para jamais nos parecermos

Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história

Da nossa história sem enredo

E não nos soa na memória

Outra palavra para o medo.
Temos fantasmas tão educados

Que adormecemos no seu ombro

Sonos vazios, despovoados

De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho

E um pacote de tabaco.

Dão-nos um pente e um espelho

Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça

E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça

A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro

Com embutidos de diamante

Para organizar já o enterro

Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,

Um avião e um violino.

Mas não nos dão o animal

Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão

Com carimbo no passaporte.

Por isso a nossa dimensão

Não é a vida.

Nem é a morte.
.

Natália Correia In “Dimensão Encontrada”

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Aposentações na Função Pública... a fuga ao "Satanazim" de O' Neill



Conhecem-nos?!...

Sim, claro... Às vezes, é melhor o silêncio de quem sim e deixar falar quem sabe ... e desta vez é Alexandre O'Neill:
(...)
Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...
Alexandre O' Neill, "Saber viver é vender a alma ao diabo", No Reino da Dinamarca

domingo, 28 de setembro de 2008

Dia Mundial do Coração

Tenho por hábito "sonhar" estes dias consagrados no calendário, pelo que não gosto de falar de doenças, preferindo da sua prevenção. Absurdo para muitos, o facto de para aqui trazer o elogio da "inocência" e dos "sentimentos ternos" como fina matéria psicológica de que se tece a saúde do coração! Pois deixem-me "sonhar" e trazer do passado mítico a lição que, para mim, faz todo o sentido. E também terei, eu própria, as minhas razões!
Aproveitei a saída, hoje, com o Diário de Notícias do 1º volume de Histórias da Bíblia, com uma linguagem fácil, acessível e bonita (texto de Paola Parazzoli - traduzido por Ana Natividade e Federico Bertolazzi - e ilustrações de Antonella Abbatiello), para celebrar o "Dia do Coração". Aqui ficam texto e imagem seleccionados.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Padeira de Aljubarrota...



Bem diz o poeta: "O mito é o nada que é tudo..."... Hoje, vi o da nossa "Padeira de Aljubarrota" actualizado num dos recorrentes "fait divers" dos jornais diários... Trocam-se os invasores por assaltantes, a pá do forno pelo balde de lixívia e eis um mito de final feliz, viajando mais de 600 anos: se os políticos não sustêm a "horda" de meliantes, há sempre uma Brites à espreita, possessa da justiça do passado, capaz de os suster e advertir... A gente nem sabe como faz, faz!... Confesso que sorri, finalmente. Às vezes vale a pena perceber por que razão o mito não morre e é parente de tanta história tradicional e das tantas que entretecem o nosso quotidiano!...
http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=6935FE8F-CAC3-4212-8CE9-B68E830EA120&channelid=00000010-0000-0000-0000-000000000010

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O Grito



Há cerca de 20 anos, li um livro de um "etnopsiquiatra", radicado francês mas de origem argelina (cujo nome esqueci), que me marcou indelevelmente.

A curiosidade primeira foi sobre essa disciplina ("etnopsiquiatria") que, percebi depois, estudava a recorrência de certas doenças psíquicas em determinadas sociedades. Com efeito, no Ocidente, a depressão e outras doenças a ela associadas eram recorrentes e pareciam provir da própria tessitura social e dá um exemplo: um conjunto de estudantes magrebinos, deslocados para Paris para estudar na Universidade, fica na maior parte doente com depressões enquanto aí permanece e, ao regressar à sociedade de origem, perde todos os sintomas.

O curioso é que essas manifestações psíquicas eram totalmente desconhecidas nessa sociedade, onde o grupo / tribo era coeso e com regras culturais bem definidas, tempos de trabalho e lazer insertos num calendário fixo e onde cada um era corresponsável pela vida de cada membro do grupo social.

A ver se encontro mais informação sobre o assunto. De facto, parecemos importar doenças, da mesma forma que importamos víveres, hábitos, estilos de vida, valorações sociais... A "solidão em comum" é um "sapo difícil de engolir" e a obediência cega às convenções sociais paga-se da mesma forma que a desobediência aos códigos. E depois... há o Amor, o Perdão, a Partilha ou o ódio, a vingança e a inveja... E as "injustiças sociais" (alicerçadas nestes sentimentos destrutivos) são, com efeito, um enorme foco de doenças "de alma" (psíquicas ou fisicamente somatizadas)...


Muito interessante o artigo de João Rodrigues, que copiei para http://mluisaan.hi5.com/

YouTube - mluisaan's Favorites

YouTube - mluisaan's Favorites

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Os Clássicos (Rudolf Nureyev e Marretas... por hoje...)


Pois é! Hoje acordei com muitas saudades do Rudolf Nureyev e descobri que ainda não o referira em lado nenhum, quando foi - durante toda a minha adolescência - e continua a ser uma referência vital de Beleza na minha vida. Como sempre acontece com alguém que nos marca profundamente, sentimos sempre muito, muito poucochinho tudo o que tentamos dizer sobre ele... O Nureyev era um clássico, para mim: beleza esculpida no tempo em cada músculo e em cada movimento... um atleta, um voo, um salto, um volteio... Se Picasso tem o touro no porte, Nureyev tem um cavalo : um masculino de garbo e raça, capaz, contudo, do olhar mais terno e do humor mais traquinas. Descobri o Nureyev em dois momentos, que me são particularmente gratos: no primeiro, a orquestra dos marretas toca um minuete, que dancei nos bons velhos tempos das festas do colégio onde estudei (logo "brincado" pela mesma orquestra em hardrock: um mimo...); no segundo, um "pas de deux" do "Lago dos Cisnes", entre Nureyev e Miss Piggi, absolutamente irresistível!
Como não agradecer aos artistas todo o amor que nos dão, por serem - tão só - aquilo que se são para nós?!... Uma ternura, estes Clássicos!

http://www.youtube.com/watch?v=zQVoBaw1A

http://www.youtube.com/watch?v=n73-BPvC62

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

(Com)paixão...


Não
É
eLe um
Sonho de
HOmem
Nosso?


É.
V
Oa,
sorRi e
chorA.

(Permitiu-se
hOje o
ouRo do
Triplo salto:
Um
Ganhador.
TreinAdor
iguaL.)

Fui colega do João Ganço, há 22 anos, nos idos do Cadaval... Também ele era como o Évora: sorridente, alegre, prestável, de olhos meninos sonhando os dias... De uma grande, forte e saudável amizade se parece, pois, ter tecido esta vitória: bonito o abraço ao treinador-pai, com o atleta em choro de vitória e bonito também - que se me perdoe! - o falhanço no último salto, com um Nelson Évora já tão afastado dos "Deuses do Olimpo" e totalmente submetido à (com) paixão humana. Falhou e chorou: GANHOU! Parabéns ao Homem...

sábado, 16 de agosto de 2008

Festa do Palio em Siena


Dia 16 de Agosto lembro-me sempre de que acabei por nunca assistir à festa do Pallio em Siena. Estive lá 2 vezes a 15 e era uma lufa-lufa de preparativos para o dia seguinte... Comi "panforte", calcorreei ruas medievais num sobe e desce de viagens ao passado, a que muito ajudava a indumentária dos jovens das várias "contradas" (bairros), os espectáculos de rua com as respectivas bandeiras (a "minha" era a da "onda", com um golfinho coroado em mar azul estilizado...) e as visitas aos vários monumentos que me ficaram na memória para a eternidade. Siena é uma das cidades de que mais gostei até hoje: o mais belo sobe e desce de ruas estreitas e serpenteantes, desembocando em praças e vislumbrando igrejas nas colinas; o mais belo chão de mosaicos (de que um dia acabarei por digitalizar alguns postais ilustrados que dele ainda conservo) no "Duomo" e a intrigante e inesquecível, para mim (e sem que perceba porquê) "Alegoria do Bom e do Mau Governo", de Lorenzetti, no Palazzo Publico... E quanto ao "panforte", era "tan forte" que só lá me pode ter sabido bem...
Deixo uns links para visitar alguns aspectos, embora com paciência arranjasse com certeza melhor, navegando um pouco "nell'Onda"...
Uma excelente recordação... Siena (castanho-dourada...)

http://www.flickr.com/photos/ideath/1795000957/
http://www.andreapagliantini.simplicissimus.it/
http://www.ricardocosta.com/pub/lorenzetti.htm
http://commons.wikimedia.org/wiki/Image:Cattedrale_d...

domingo, 3 de agosto de 2008

Googol, Google e Código de Trabalho...



Já o Chomsky (biólogo de formação) dizia que, até cerca dos 12 anos, a criança tem a possibilidade de aprender qualquer língua, sendo que a partir daí o faz, mas com sotaque.
O Manel, aprendiz de linguagens, do alto dos seus 15 meses, comunica verbalmente (e muito) com um "kaw" (parece "cão") universal: ele é gato, água, cão, o que esteja nos livros... E só não percebe quem não quer, que ele sabe bem expressar-se com linguagens emotivas (curioso, surpreso, cuidadoso, alegre, feliz...)...
Vem isto a propósito da reportagem que ontem vi no "Biography Channel" sobre o nascimento do "Google". Os jovens doutorandos Larry Page e Sergey Brin inventam um novo motor de busca muito mais amplo e rápido e decidem chamar-lhe "Googol": o "kaw" do sobrinho de 8 anos do matemático Edward Kasner... De facto, ao perguntar ao miúdo como chamaria ao maior número que ele imaginasse (tipo, "quantas areias tem o mar?), este respondeu-lhe sabiamente num som que o tio traduziu graficamente por "Googol" (1 seguido de 100 zeros, em Matemática, a partir de então). Os nossos jovens engenheiros, quando arranjam finalmente um patrocinador, ditam ao empresário "Googol" e ele escreve "Google" e assim fica registado como empresa.
Fico contente, porque sempre gostei do nome e não há nada mais sábio que utilizar a linguagem "virtual" e afectiva da criança para baptizar a "poesia da descoberta": um instante de alma e de sonho (a "bola colorida entre as mãos de uma criança" ou a "pedra filosofal", do poeta e investigador Gedeão).
E já agora, vale a pena investigar as condições de trabalho em que os empregados da Google (quase todos jovens licenciados) desenvolvem a sua criatividade... Aqui fica um link para uma pequena amostra, no Youtube... Empregado feliz, empresa de sucesso... Eles sim, os chamados "patrões" da Google é que sabem de "Código de Trabalho"!...

- Quem é o bébé mais lindo do mundo, quem é?...
- Kaw, kaw... (apontando o gato...)
- Gu...gle... gu...gle (dando os braços, ao tio...)

http://www.youtube.com/watch?v=Ik0T_O5FZNA


quinta-feira, 31 de julho de 2008

YouTube - Guernica Picasso

YouTube - Guernica Picasso

Linguagens...



Encontrei uma linguagem com a qual me identifico para sonhar o que é "desumano": talvez eufemística, com pudor e respeito pelo outro - como a batalha de Alcácer-Quibir filmada pelo Manoel de Oliveira -, sonhada pela arte e pelo olhar de quem nasceu para a beleza, o mesmo é dizer, para ser "humano"... A Guernica de Picasso é aqui, mais que uma denúncia, o eco de um olhar que só quis sonhar o universo e que, num momento deserdado de humanidade, se institui palimpsesto de muitas outras guerras. Frente ao monstro, a pomba da paz no escudo do "artista"... Muito bonito, este olhar!...
YouTube - Guernica Picasso

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Aniversário (90 anos) de Nelson Mandela


Mandela e Xanana Gusmão (e Fernando Mamede, quando perdeu a medalha de ouro nos 10.000 metros) são alegrias minhas, de alma. Em qualquer dos casos, eu era muito jovem e fui sempre remetida ao silêncio pela pose faraónica e verborreia despeitada dos que não lhes perdoavam as apregoadas "fraquezas": um era "preto", nunca saberia conduzir um país como a rica África do Sul; o segundo traíra Timor, vendendo-se à Indonésia e " o do parênteses" era a vergonha nacional, por não ter aguentado o "stress do ouro" que lhe puseram às costas... Uns "fracos", portanto, como se lhes estivesse nos genes a "fraqueza" anquilosante dos que não jogam o jogo do "poder" com as armas (re)conhecidas! Esses mesmos, hoje, "perdoam-lhes" o ultraje que fizeram aos seus orgulhos desfeitos, silenciam o seu não assumido desdém e... condenam, ao segundo, o "avançado que não goleou", aquele em quem investiram a sua sede de "glória de mandar, oh vã cobiça..." (o Camões é um ganda chato e akilo não é pa ler...)...
Não estou muito feliz hoje , porque nunca me faz feliz recordar e viver estas "paralateralidades" do nosso quotidiano, mas lembrei-me do António Gedeão e achei que ele é que me tinha dito tudo: não está nos genes esta diferença (de superioridade racial ou de comportamento, seja ele qual for) mas sim ... (e agora que cada um complete - ou não - a frase...). Eu, por mim, não completo. Ainda assim, prefiro acreditar na "teoria do bom selvagem" do Rousseau...


Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Branca de Neve e os 7 anões

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES

Quando regressei a casa já não havia ninguém. Meu pai fora-se ultrajar com a minha madrasta e, como é habitual nestas histórias “madrasta entrada, filha molestada”. Só que entrar numa casa vazia, onde os móveis poeirentos nos lembram agonias, os sonhos das aranhas povoam a cómoda vazia e por dentro de nós só subsiste a vontade de um abrigo, é um pouco duro... Pano do pó em riste, água e aspirador prontos, a força da Mãe por dentro, limpa Branca de Neve o seu novo apartamento...


“Quem me quer bem, meu bem, me ama ainda mais
Quem me quer mal, meu Pai, me faz comer o sal...
Oooh oooh óóóh........................
Menina bonita, com cara de anjo, vem aqui comigo,
Traz a mim um sonho
Vem, fadinha linda, traz o teu encanto
Vem comigo sempre, mitigar o pranto...
Óóóóóóóóóh!...”

Bela como sempre e com flores de harmonia no canto, tudo o que na casa havia de poeira e agonia se afastou do apartamento. Limpa por dentro e por fora, a nova casa do amor da Senhora que ela era já, ficou pronta e sossegada.
No silêncio da floresta, só o canto dos pássaros a saudava. Saltitante e feliz, a borboleta adejava ao som da sua música e até os cogumelos com que ela se encantara, se vestiram de cores pintalgadas e se anelaram por dentro.


“Quem me quer bem, meu bem
O meu coração tem!
Vem, vem, vem!...”

Cantava a floresta com ela o seu sonho de verdade... A Primavera era tarda por vezes, mas a música da floresta era sábia de séculos e suturava as feridas das plantas inchadas pelo Inverno rigoroso. A pouco e pouco, também os filhotes das mais velhas plantas do Inverno ganharam força e sorriram à luz do sol que se avizinhava a pouco e pouco e de mansinho da nova casa da floresta, já limpa e arrumada para receber alguns hóspedes. Estava a Branca de Neve com o seu espelho de amor por dentro, quando com fragor e arrogância, é acordada por uma voz cavernosa e inchada, toda ela avermelhada num nariz de anão empertigado:
Narigudo - Quem és tu, ó criatura do Bem, que me arrumaste a casa e a limpaste, sem saberes quem era o dono?
B. N. - Como diz, senhor anão Narigudo? Eu sou a Branca de Neve florida. Desci do Inverno despida de alegria e aqui encontrei um pouco de fantasia...
N - Fantasia, minha cara menina? Um anão não sabe o que isso é! Não a quero cá, nesta minha casa... minha, não, nossa, que isto é só uma casa de irmãos. Quem a mandou fantasiar a nossa maneira de habitar?
B. N. - Desculpe, senhor anão, eu só quis ajudar!...
Refilão – Por mil raios e coriscos, que eu não acredito nisto, meu irmão Narigudo! Quem é esta nojentona irritadiça e maldosa que nos ocupou a roça? Isto é uma casa de trabalho... Rua, rua, com a sua fantasia!...
N – Refilão, cala-te, por favor. Ela também é filha do Senhor. Deixa-a acalmar, para ver se deixa de chorar...
B. N. – Desculpem, desculpem, por favor... Eu só queria descansar...
R – Bom, cala-te lá com essa baba e ranho, que eu sou um homem de antanho e não gosto de lamechices... Veste aí uma trapalhice qualquer e deixa-te de fantasias!...
B. N. – Posso ficar?
N. e R. – Podes, mas só hoje.
B. N. – Obrigada, obrigada, senhores anões!...
Chegam entretanto os cinco irmãos que, à voz do comando do Refilão, se sustiveram no passo:
R – Pançudo, Orelhudo, Descorado, Virtuoso e Poeta... Estugar o passo! Toca a dormir... Cada um para a sua toca, que hoje o Narigudo não encontrou caça para nós.
P – Eu só comi uma lagarta – diz o Pançudo ao Orelhudo.
O – E eu só ouvi as asas do grilo a bater na minha barriga – constatou o Orelhudo.
D – Ai que eu desmaio, ai que me vou – titubeia o Descorado.
Virtuoso e Poeta, com a fantasia à perna, dirigem-se para o leito. Era uma pequena e fofa toca para anões onde nunca faltava a fantasia... De olhos semi-cerrados – que os anões nunca dormem realmente – deixaram-se balançar pelos véus do seu sustento... Virtuoso, cheio da poesia do irmão por dentro, viu-se por dentro da sua barriguinha onde só encontrou harpejos de alegria

“Quem me quer bem, meu bem,
É quem me sustém....
Òóóóóóóóóh!”

V – Ó quanta melancolia na voz, ó minha avó! Que tem meu irmão poeta?
- É um sonhador invertebrado... Sustenta-se das asas com que voa. Tanto vive em Lisboa, como no prado da sua imaginação! Deixa-o dormir!

Ao lado do Poeta, Virtuoso ressonava. Farto de esperar pelo toque da sineta que os impelia para o trabalho, a anão Virtuoso despertou, abanou o irmão Poeta e como este nunca mais acordava, deu-lhe um valente safanão, o que fez com que este despertasse o Refilão que, com a sua voz de trovão, cornetou os outros todos:
- Toca a levantar! Marcheee!...
Branca de Neve, medrosa, nem um pouco se mexeu. Talvez se esquecessem dela... e com o rosa-chá das faces que encantavam as madrugadas de Fevereiro, ficou ali amarelinha de medo.
B. N. – Queres ver que se esqueceram de mim, ó minha Mãe do Céu, que me protegeste mais uma vez... Se não fora a minha tez se manchar de rosa-chá, eu já não estaria cá!
- Tem cuidado, Branca de Neve, que o anão Narigudo é o mais empertigado... É que se ele te cheira e te encontra por cá...
B. N. – Eu lhes faço um chá de rosas, minha Mãe Celestial...
- Como queiras, Branca de Neve...
Farta de florir nas faces da menina, a rosa-chá foi florir para o jardim, onde encontrou uma multidão de avezinhas que a floriram ainda mais. Toda a floresta desperta se encantou com a rosa-chá. É que ela não era de cá e nesta floresta amena, só a açucena floria por alturas de Fevereiro...
Carapinhas de rosas, pequeninas e ternurentas se enovelaram pelas narinas do anão Narigudo.
N – Cheira-me a mel! Cheira-me a mel, Refilão!... É por aqui, pela floresta mais densa... Por aqui, por aqui...
Todos à uma, que os anões irmãos andam sempre unidos, dirigem-se como formigas atrás do anão Narigudo.
- Mel! Mel Mel!... Comida, finalmente! Comidinha... – e Pançudo esfregava a rotunda pança numa autêntica dança.

“Quem me quer bem, meu bem,
É que me sustém!...”
O – Ah, já sei! É a filha do Rei da Floresta que decidiu abrir o pote! – diz o Orelhudo.
V – Calma, meus irmãos, que a virtude de Salomão nos ensina que
“Mel, se o achares, come o que baste, não te sacies,
senão depois talvez te enjoes e agonies” – acudiu o Virtuoso.
- Em tempos que já lá vão, eu não era vosso irmão. Por que razão, ó minha imaginação, tenho eu de aguentar este Descorado mesquinho, que nunca vê no caminho nada mais que um porco-espinho? Cala-te, solteirão maldito, que o mel de Branca de Neve é tão doce e tão certeiro, que nenhum de nós fica solteiro! É ela a nossa rainha!....
R – À uma p’ra casa! Marcheee!... – vocifera o Refilão.
Cheirosa e arrumada, com a casa do torvelinho toda lavada e vistosa, a bela rainha sorria.
B. N. – Eu sou a Branca de Neve, rainha do vosso cheiro, modéstia do vosso mando, mel dos vossos corações, música dos vossos ouvidos, vossa saúde e bem-estar, asas do amor eterno e poesia fraterna... Sou vossa amiga e rainha....Quereis-me vós aceitar?
Um a um, os anões soluçavam e, arrependidos, pediam a Branca de Neve que nunca mais os deixasse... A Rainha-Mãe Celestial sorria nas faces rosa-chá da sua filha querida.
Tontos de alegria e levados pelo mel da sua imaginação, encostaram o coração ao da rainha Branca de Neve e viveram séculos e séculos, enternecidos e amenos.
Casada e feliz com os sete anões servidores, a vida de Brance de Neve decorria calma e serena, sem qualquer desaconchego. Um dia, o Medo regressou.
- Madrasta molesta eu sou. Ainda vives, energúmena?
Um silêncio maior percorreu a floresta. Calma e serena, Branca de Neve esperou que a nuvem negra se afastasse no céu limpo. A chuva caiu depois: breve, mansa também e aligeirando as muitas flores que perfumavam a floresta.
- Como sois bela, Branca de Neve, e como é leve o vosso desejo de bondade. Amastes a vossa madrasta?
Branca de Neve sorriu. Afinal, aquela velhinha tonta que a confiscara ao seu pai, não era mais que uma nuvem, negra e densa decerto, mas que com o caminho certo que ela conseguira traçar, a conseguira afastar... Velha madrasta do espírito, a que tivera de enfrentar! Casara-a ela com a chuva mansa e breve do seu ser. Era ainda uma menina e já sabia prever que as nuvens densas do céu que de negro se revestem são sonhos maus para o ventre da terra que quer ser fértil. Foi um sonho derradeiro – ou seria um pesadelo? – aquele que ela enfrentara. Rainha do Céu e Terra era a Mãe que a ofertava ao serviço dos anões e porque soube servir sem a capa e espada dos homens, se viu de novo servir em alegria e bondade. É hoje poeta amena, gosta de servir tão bem que às vezes na pena da esferográfica que tem por dentro do computador, se lhe desperta a harmonia das vozes que a conceberam: vozes da Terra e do Céu? Vozes da desarmonia? A voz que sai do silêncio é sempre a mais desejada. Voz da Mãe que a consagrou no serviço à floresta foi só um sonho feliz ou não passou de uma sesta ao luar da fantasia? É Rainha da Harmonia a Branca de Neve florida que em qualquer estação dos tempos que nos povoam, nos traz paz e harmonia e se desenha em Lisboa ou outra cidade assim. Floresce em qualquer jardim, é a rosa-chá da bondade. Por cima, o céu estrelado lhe diria que é Janeiro; por dentro, sabe que não. Sabe que em qualquer estação do tempo que já não há, houve uma fada tranquila que por ser velha e, com sabedoria, Ter sabido despertar o amor dos seus anões, se devolveu a si própria e se encontrou com o Amor da Rainha que nos dá o mel melhor para a vida: sorrir é florir sempre.

E se quiserem ofertar outro fim a esta história, terão de ir à memória do vosso computador e relembrar o encanto a que ela se rendeu, quando bem mais velha e sábia, um príncipe a recolheu do altar do pensamento. Mas porque essa é outra história de amor em mim consagrada, eu que sou vossa almofada no leito em que vos dormis, me devolvo de novo a mim e me faço de Arlequim e com uma nova pirueta, vos falo da Nau Catrineta. Querem? Sim?... Então, aí vai!

terça-feira, 15 de julho de 2008

A luz de Rembrandt


Rembrandt faz hoje 402 anos.
Ao tentar escolher um quadro do pintor, dei comigo a desistir: afinal, do que gosto mesmo é da luz que ele dá aos quadros e da minúcia do retrato a que empresta alma. Mas, e infelizmente, normalmente não gosto dos temas e da forma como ele vê a realidade: arte de excesso, pungente e dramática, quando não trágica.
Fez-me lembrar aqueles médicos que, para tratarem um doente, lhe entornam um manancial de explicações e eventuais sintomas, que são todos consequência hipotética daquele "sinalzinho" teimoso que acabámos por mostrar, sem porquê. Desejosos de sair da "aula de anatomia" de Rembrandt, mergulhamos na floresta ao sol-pôr e recolhemos a luz na máquina fotográfica, sempre amiga...
Queria homenagear o Rembrandt, mas não sei ainda que pedaço de luz para aqui transportarei, se é que não opto por um desenho (o leão...) ou estudo (a mulher...), em que pela simplicidade (aparente, pelo menos) me traz "o engenho e a arte" com que o costumo lembrar, sem o pensar.

O que ficar, é para o que dele há em nós de eternidade.

sábado, 12 de julho de 2008

Tive sorte


Tive sorte. Nasci à sombra de um castelo medieval, de um casal com o sentido do ritmo. Do meu pai ficaram muitas histórias tradicionais, balanceadas nos joelhos onde nos equilibrávamos eu e os meus dois irmãos mais novos: contar uma história era dramatizá-la, encenada sempre connosco como personagens principais; da minha mãe, estão o canto, o emaravilhamento da poesia e de todo o acto criador: poemas, lengalengas, trava-línguas (à compita com o pai), rendas e bordados, patchworks e costuras...
E depois, tive a sorte de ter quatro irmãos, cada um parecido consigo próprio: aprendizagem contínua e educação para a vida.
E o castelo sempre lá... e os sonhos do tempo que transporta... (ainda hoje se me acendem na imaginação a memória das das patas dos cavalos medievais acendendo as lajes graníticas da rua do meu "Cimo de Vila").

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Violeta


Voltei-me
Intrigado:
Odor
subtiL
A lavado.


Onde está
Dona Violeta?
O
Rasto
A
T
Atapetado a ternura?...


Naquelas brincadeiras inocentes com que se ganham segundos ao relógio, era hábito perguntarmo-nos, inocentes:

- Se fosses uma flor, o que serias?
- Uma violeta...
- E um animal?
- Uma joaninha...

E era assim que eu sempre respondia. Pois é, meu bem, mas tudo afinal é um teste psicológico e só falamos (ou escrevemos) sobre nós e projectamos nos outros os sonhos que nos sonhamos e dizemos de nós o que precisamos na vida para lhe o ofertarmos de novo: simplicidade e Beleza, Subtileza e Humildade. Por mim, é igual. Ainda assim, prefiro a Violeta (e a Joaninha)


Gostava muito de ter um frasco de perfume em forma de "viola odorata"!... Talvez um dia uma "Joaninha" o sonhe (fazê-lo é que é pior!) Ai não passe um Lalique por ela e eu acabava por o encontrar naquele "Bazar Chinês" lá de cima...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Luís Sepúlveda, História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a Voar

História de Amor, Ecologia, Solidariedade e Verdade.



Do tempo em que os animais falavam, Luís Sepúlveda oferece-nos essa linguagem de afectos e lealdade à Natureza, convocando todos os gatos liderados pelo Zorbas (gato grande, preto e gordo) para ensinar à gaivota Ditosa (a quem vê nascer e morrer a mãe) o seu destino de Voo. O poeta ("que voa com as palavras") ajuda Zorbas e a sua gata Bubulina a fazer voar Ditosa do alto da Torre de São Miguel.








O poeta. o gato, a gaivota, todos eles têm medo, mas todos eles aprendem ao longo da Vida a superá-lo. Todos aprendem que a Vida é, com efeito, o bem mais precioso da Natureza e que um laço de Amor (e Linguagem) une todos os seres vivos. Por isso, todos eles se interajudam, transformando este livro numa belíssima lição de Humanidade, Ecologia e Amor.



Um hino à Vida, co(a)ntado por Luís Sepúlveda.

terça-feira, 10 de junho de 2008


História Tragico-poética

Lá vem a Nau Catrineta
que cansada ela nos vem!
Traz o destino na proa
Condu-la Senhora Mãe.

Pelos altos mares sem fundo
a proa encostou à ré.
Foi-se embora a alegria
das gentes, mas não a fé.
Eram tantas as tormentas
tão eriçadas as pontas
das ondas fragosas e imensas
que as gentes de Portugal
se despediam em silêncio
da vida e do sonho novo
que, na faina e na labuta,
os fizera percorrer
o caminho dos Infernos.

Foram muitos condenados
às vagas pelas galés.
Nelas foram sepultados
Sepúlveda e outras marés
do azar mítico português.
Nelas se foram os sonhos
de Dinis e do Infante
que à proa do olhar seu
outro destino sonharam
pr’às gentes do meu país.
Quis a molesta sorte deles
que nos mares desencontrados
dos sonhos por realizar
se avistassem com o Dragão,
pesadelo da Nação
de aquém e de além-mar.


Foi triste e cinzenta a noite
em que no mastro da fome
se eriçou Belzebu
contra o grande capitão
da grã-nau desta nação.
Contra ele se sorri
e se desfaz em promessas:
“Por ti, ó grão marinheiro,
eu vim cá com o meu parceiro;
trago-te a fama e o raio
que poderás desferir
sobre uma nação inteira
que à morte te condenou.
Trago-te ondas de riqueza,
malvasias de ventinhos
e, se quiseres, carneirinhos
que semearei nas ondas...
Tudo p’ra ti e p’ra sempre...”

Mais falara Belzebu,
se ao grande capitão
da nau que se esmorecia,
não regressasse a valentia
do seu nobre coração:
“A ti conheço, maldito!
A alma que aqui não pedes
É o que queres para ti...
Mas só ela me conduz.
E pelo amor que me trouxe
e connosco viajou,
eu te acrescento a lonjura
das gentes do meu país.
As garras aqui não pões,
porque à proa desta barca,
tu não mais terás poder.
Consagrada no areal,
a alma que aqui remámos
há um nome: Portugal!”

Retorce-se o medo imundo
pelos mares que já não há.
Foram sonhos de outras épocas...
Gente que já cá não está...
Mas fomos todos irmãos
e senhores desta Nação.
Pelas mulheres que rezaram
e nossos filhos geraram,
pelas praias do país,
cuja alma defendemos,
todos regressámos, todos,
- mais mortos que vivos já -,
mas à Nação Portuguesa,
despejados do terror,
aportámos e sonhámos
um novo destino ainda...
Na barca desta Nação
em cuja proa a Senhora
navegou até à praia,
todos chegámos, vencidos
de amor de nós e da Pátria,
prontos e restabelecidos
dos vendavais que passaram.
A brisa que a nós nos traz
as memórias de lonjura
da Mãe que nos conduziu
pelas águas, até aqui,
nos é ainda memória
do gesto de amor derradeiro
com que despedimos a morte
e o destino traiçoeiro.

Mas dos mares do passado
que nos sepultou heróis,
guardamos a arma do crime:
no mastro alto do sonho
da vida que nossa foi,
capitães houve, depois,
que ao destino entregaram
a alma que ele não tem.
Verbo consagrado em si
e em si próprio encerrado
nas masmorras de um país
que, nas vagas alterosas
de um sonho que quis cumprir,
acabou por não florir...

Vozes da Terra e do Céu
não chegaram ao Horizonte
do Setestrelo da Sorte...
Foram homens e mulheres.
Geraram filhos humanos.
Serviram com o seu desdém
o ultraje a um desgoverno
que, impotente e ultrajado,
se considerou magoado
e se vendeu ao estrangeiro.

Fomos por dentro de nós.
Navegámos à bolina
com a sorte que a brisa traz...
Não tem armas Belzebu
para aqui retroceder.
Não há morte, nem há guerra,
nem o país arderá
no inferno que aqui traz
o espírito santo da tropa
estrangeira a esta Nação.
Se somos todos irmãos,
almas em amor consagradas,
é porque os ventos da sorte
nos quiseram bafejar
com a alegria e a inveja
da Alma que aqui floresce.

Foi em Abril o condado
sonhado, aqui, traiçoeiro,
não foi, não, o estrangeiro
que nos repariu o Cruzado...
Fomos nós, também, mulheres,
que, na praia, abandonadas,
quisémos o mastro e o leme
da barca do nosso Amor
fazer navegar de novo...
Somos mulheres traiçoeiras,
diz o povo, e sem razão,
pois lhes doamos os filhos
que à Nação e não à Estranja
lhes pode trazer a bênção.

São os acasos da Sorte
da gente do meu país:
fracassos, derrotas... memórias
de outro tempo feliz!
À proa da Barca a Senhora,
Alma-Mãe desta Nação,
se entregou o nosso sonho
e o valoroso capitão
da nossa Nau Catrineta
que, no momento da sorte,
soube encontrar o seu Norte:
“Seja o Amor o meu fado
e sempre o possa eu cantar!...”

E a alma da Nação
no dia seguinte, a varar...

domingo, 8 de junho de 2008

A Vida das Palavras


O UNIVERSO DA PEDOFILIA


Morrem palavras desgastadas por um tempo devorador, mas crescem engastadas num tempo que é escultor.

“Dona” e senhora do coração medieval (herdeira da “mi dons” provençal), a palavra “Dona” transformou-se com o tempo em bengala de hierarquização social (D.ª). Desgastada em abreviatura, mais não é que a D. Maria do proletariado urbano, subserviente em relação à Srª D. Maria da alta burguesia, mas displicente em relação à ti’ Maria do povo rural ou à Maria, criada para todo o serviço e, às vezes, Mulher.
Engastada no tempo e sem perder nenhuma das suas mais-valias de expressão artística (e, por isso mesmo, sentimental), é amorosamente recuperada pela nova geração de adolescentes com o sentido arcaico de “eleita do meu coração”: a “minha dona” não se confunde no final do século XX e início do século XXI com a “minha garina”, a “minha miúda”, etc.

Vem esta reflexão de professora (pois foram os alunos que me explicaram esta nova versão de carinho amoroso), a propósito de um problema social que tem feito correr máquinas rotativas, impressoras de computador e tecer jogos verbais: orais (e anais, mais parecem alguns, com efeito...), expressões faciais (de amor, ódio, raiva, esperança... sentimentos que tais), etc... etc... e que dá pelo nome de PEDOFILIA.
Ao contrário da “Dona” medieval, amada e respeitada que o final do século XX vê ressurgir pela boca jovem dos adolescentes, a “pedofilia” (etimologicamente, amor às crianças) vê o seu percurso de palavra agonizar brutal e criminosamente nos lábios fálicos de um qualquer “erómano” militante.

Com efeito, “pedofilia” é palavra etimologicamente enraizada no grego (“paidos”= criança + “filos”=amor). O amor de “Filos”, que não é confundível na Grécia com o de “Eros”, subsiste em palavras como “Filosofia” (o amor à sabedoria), “Filantropia” (o amor ao ser humano) ou até no antropónimo “Filipe” (o que ama os cavalos). “Pedófilo” é, pois, por esta raiz de sabedoria arcaica, escorada na filosofia grega, um ser que sente o amor de “Filos” em relação às crianças. Na árvore genealógica de Pedofilia não há, pois, amor de Eros, mas – tentando definir o amor de “Filos” para português – respeito, carinho, atenção, dedicação, serviço... em relação às crianças e a favor das crianças. De facto, a relação que Eros institui com o corpo é uma relação de amor que procura na saúde física e psíquica a completude que em todo o ser humano é, simultaneamente, sonho palpável e efémero de um instante de eternidade e nostalgia breve de uma acronia universal. Menino travesso e ladino, de olhos vendados e sorriso à espreita, Eros é a brincadeira terna que une os corpos, a alegria breve que os enfeita e a sensualidade audaz que os desnuda. Em Amor, Eros mais não é que a “infância”...
Sob o olhar conspícuo de um “australopitecus”, vulgar galã de formas e velho sedutor da criança de olhos vendados (a criança ela-própria, o próprio corpo do Deus-menino: Eros), o “bébé” não é já mais do que um objecto roubado à sageza do mundo, à sensatez do humano e à alegria da maternidade (ou paternidade que, neste caso, é o mesmo). Erómano de si mesmo, o “pedófilo” (que assim hoje é chamado) vive a clausura social dentro de si. Doente, “maníaco de crianças”, chamar-lhe-ia com maior propriedade PUERÓMANO, neologismo criado sob o paradigma do “pirómano” ou do “cleptómano”, retirando assim da sua genealogia verbal toda e qualquer relação com o Amor que à Grécia repugnaria e só a Roma confundiria. E digo que a Roma confundiria, porque às três palavras que no grego expressavam o Amor (Eros, Filos e Agapé), Roma as (con)fundiu, gerando um “Amor” demasiado lato, que a civilização portuguesa a pouco e pouco foi também ela destrinçando pelo seu enriquecimento cultural/verbal. E é por isso que em Portugal temos o "amor do corpo" (erótico), o “amor da mente, espiritual” (filosófico) e o “amor ao outro” (filantrópico).

Por tudo o que disse, em pleno século XXI, a “Pedofilia” arcaica, grega, morreu. Morreu a palavra, porque morreu o Amor que lhe estava na génese. E por isso recorro à genética Roma, que (con)fundiu as três formas de Amor grego no seu “Amor, amoris”, para por via erudita nos criar um neologismo que diga a nova realidade psíquica dos que sofrem em português do amor erógeno pelas crianças: PUEROMANIA (“puer”=criança + “mania”=obsessão).
Assim sendo, o que a sociedade vem punindo não é o arcaico “pedófilo” que ama com amor desinteressado e humano a criança, mas o PUERÓMANO, o que investe na criança um erotismo adulto, não a respeitando como ser em formação, humana e psiquicamente falando.

Se “Chronos”, o Tempo, devorou o afecto da “mi dons” retirando-lhe o possessivo, transformando-a em “Dona” e “D.” Fulana de Tal, um Tempo novo a recuperou em afecto e ternura no final do século XX, com a recuperação pela gíria juvenil da “MINHA DONA” (=A MULHER QUE EU AMO: a “sinhor do meu coraçom” medieval).

Na esperança que o mesmo processo recupere a “pedofilia” do seu passado próximo de dor e lhe traga pelo Verbo o engaste cronológico do Amor ... escrevo. Para que na origem grega se pense também a Língua Portuguesa.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O Medo é amigo da Cautela e inimigo da Temeridade


DA IMPORTÂNCIA DE TER MEDO
em
O Gato das Botas (C. Perrault) e O Homem que Busca Estremecer (A. Coelho)


“Pourquoi ce silence prolongé sur le rôle de la peur dans l’histoire?”
(Delumeau, 1978: 13, 14)


INTRODUÇÃO

Os contos em análise[1] ilustram o tipo 545B (Puss in Boots) e o tipo 326 (The youth who wanted to learn what fear is) do catálogo de Aarne – Thompson, Types of the Folktale. O Gato das Botas já fazia parte das compilações italianas de Straparola e Basile (séculos XVI, XVII). De grande divulgação entre o público infantil, quer na sua vertente oral, quer na escrita, continua a ilustrar o fascínio que a magia arcaica exerce sobre as crianças: o gato, amigo e “deus” onírico do homem – “Trickster” matreiro, astuto e fautor da felicidade do herói – traz ao público infantil a alegria da sua ascese (sou o que sou, porque já aprendi com os homens a não confiar no fascínio que exerceram sobre mim). Quanto a O Homem que Busca Estremecer, suficientemente atestado na nossa tradição oral, surge com mais rara divulgação escrita[2], apesar de nos parecer um exemplo cabal de ilustração da sociedade agressiva (e, desse ponto de vista, arcaica), em que as crianças têm de evoluir. As “fantasmagorias” que perpassam o tecido dos “textos” audiovisuais consumidos avidamente pelas crianças (ex: série “Dragonball”) são uma réplica no futuro dos “fantasmas” que o nosso herói teve de ultrapassar no passado. Deste ponto de vista é, pois, natural que a sua divulgação entre o público infantil seja mais rara, visto que o presente que habitamos já se não compadece com o conceito de “almas penadas” que assolam o mundo dos vivos com fantasmas que é necessário vencer, mas optou entretanto pela projecção, no futuro, de heróis espaciais, mais ou menos robóticos que, despojados do medo que os faria fraquejar, evoluem de forma idêntica, pelo sentimento de Amor que (os) liberta. Songoku, herói libertador da série “Dragonball”, vence pela razão e pelo amor as hostes interplanetárias que ameaçam a sua vida e a da Terra (onde cresceu e se tornou “humano”), na eterna luta social e anímica em que o homem tem de crescer. Por razões óbvias para qualquer criança, também Songoku – porque não tem medo –, tem direito a “estremecer” de amor nos braços da sua amada, constituindo com ela uma família feliz bafejada por dois filhos. Quem vence é sempre o herói social, pois animicamente já evoluiu para o estádio em que pode assumir um papel de relevo na sociedade: com ele se identificam as crianças e a criança grande que subjaz no coração de todos os adultos. O nosso “Homem que Busca Estremecer” é um jovem “adolescente”, saturado de viver numa sociedade em que a sua diferença o coloca numa posição marginal, o que obviamente o impele para a partida de um seio que lhe não é já maternal, mas de afronta psíquica constante (o que também acontece com Songoku, no planeta onde nascera). Parte com o objectivo místico de se integrar na sociedade que o criou e educou (conhecer o “medo” que os outros conhecem), mas regressa afinal com um novo sentido de vida que sempre revivificará a sociedade arcaica de onde partiu. É, por isso, um homem feliz e assim no-lo apresenta o conto nas suas diferentes versões.

O Gato” e o “Homem que Busca Estremecer”, heróis dos nossos contos, representam por isso duas asceses no tempo, aos quais foi socialmente entregue a incumbência de, pela sua actuação anímica, combater o mal-estar que povoava de guerras, ódios, injustiças ou mortes a sociedade humana que tinham “herdado” e onde tinham crescido na infância. O seu papel será pois o de, pela sua luta, sempre solitária (pois são eles os “diferentes”), revigorar o novo tronco da árvore da sabedoria que, entretanto, fora semeada com nova raiz - a da esperança de vida numa nova geração já nascida com a capacidade de não “estremecer” frente aos “fantasmas” do passado (para o herói) e do presente (para a sociedade) - e procurar na nova raiz do medo a esperança de salvação da sociedade agonizante em que foram educados.

AO ENCONTRO DO “HERÓI”

Enquanto no conto tipo 326, o herói é definido “a priori” como humano, no do tipo 545 B, o herói é um ser animal (gato na nossa tradição, mas macaco, por exemplo, na versão recolhida por Fontes na Nova Inglaterra). A dissociação homem/animal, tão grata ao mundo da infância, revela a presença de forças exteriores ao homem que o ajudam e o impelem à acção. Dum certo ponto de vista, o gato é o herdeiro animal da sociedade humana dos “padrinhos”, “santos” e outros iniciadores que, pela fé, ou pela razão, ajudam o ser humano a evoluir (cumprir o seu destino). É por essa razão que o ser animal, “gato” nos nossos contos, apresenta toda a dimensão humana do “fazer” (saber em acção) em contraponto à passividade do ser da criança deserdada pela família. Para o público infantil, o herói é o “Gato das Botas”; para nós, adultos, o herói é a criança deserdada pelo pai, frente à agressividade de um meio social que lhe não oferta as condições mínimas de sobrevivência, num mundo orientado pelo dinheiro (que não tem), pela posição social (de que carece) e pelo Poder ele-próprio (ódio ancestral à “criança” promissora pelas suas virtudes anímicas), personificado no Gigante/Ogre mágico que possui a terra, tiraniza os seus habitantes e constitui uma ameaça constante ao verdadeiro rei: o que vela pelos súbditos e pretende revivificar o reino por um casamento promissor para a sua filha.
Este ponto de vista de “dissociação de personalidade”, grato à infância, é anulado eficazmente por certas versões populares, o que filia o conto no que designamos por “tradição do mito em acção”[3], na medida em que este sempre se renova pela múltiplas virtudes combinatórias que o operacionalizam à revelia dos tempos e dos espaços (“Era uma vez... num reino muito distante...). O “Gato das Botas” transforma-se, no final, literalmente em príncipe, ou seja, o herói completa a sua ascese, incorporando em si o que nele existia em forma virtual já na sua infância: a capacidade, depois feita necessidade, de se defender (lado animal do ser humano).
No conto tipo 326, o herói não apresenta qualquer dissociação de personalidade, ou seja, já traz dentro de si as capacidades de defesa do Ogre/fantasma/diabo/feiticeiro, etc., e pode por isso enfrentá-lo sem qualquer risco para a sua vida humana. As forças telúricas, das trevas, que ele vai enfrentando, só o revelam como um ser que só desconhece de si o que nele é esperança de revivificação/reanimação social, seja ele:
A) o centro das atenções de uma sociedade masculina, guerreira por excelência, que festeja em tempo de “paz” os seus “troféus de guerra ou caças”, podendo ulteriormente transformar em gabarolice o feito guerreiro do vencedor dos seus medos; assim a sociedade ganha o seu “trinca-fortes” / “valentão das dúzias” (V252, V256, V292);
B) o filho atento e “devoto” de uma “mãe solitária” , sociedade no feminino, centrada no rejuvenescimento harmonioso dos filhos que, mais tarde, terão de cumprir o seu destino fora da órbita maternal (versão de Alexandrino);
C) o novo rebento destas duas sociedades, centradas, a primeira no masculino (guerreira) e a segunda no feminino, (pacífica), mas que já tiveram o tempo suficiente para amadurecer no seu seio a esperança de vida que o herói reinicia. Como? Através de um casamento, conseguido fora da sociedade “endogâmica” em que todos subsistem mas que, inevitavelmente e pela lei natural do seu destino, revivificará a sociedade de origem através da sua ligação à “senhora das pombas”: esposa, mulher, amante e, futuramente, Mãe de uma nova sociedade reiniciada em Amor. Desta sociedade poderemos dizer que, ela sim, é acrónica e utópica, pois vive da estrutura onírica mais forte no ser humano: a de ligar pelo elo do Amor todos os seus filhos. Nela se filiam todas as religiões e/ou filosofias de vida.
Os contos tipo 545B e 326 definem, como aliás todas as outras narrativas de acção, o perfil do seu Herói: ser místico consigo próprio, capaz de encontrar na sua solidão a força anímica que o ajuda a evoluir, pois o seu destino – sendo à partida, diferente - , terá de ser encontrado fora das quatro paredes de um castelo mágico fechado sobre si - mesmo (sociedade que o acolheu e educou para lhe ser um “igual”). O herói parte, porque tem de partir: para sua própria saúde (salvação, felicidade) e, paradoxalmente, para a da sociedade que o vê partir. Tudo o resto são aventuras, escolhos anímicos de um mundo que na adolescência já não fazia parte de si e que, fora do perímetro social de origem, terá de novo de enfrentar. O seu acesso à idade adulta ser-lhe-á ofertado pelo novo medo que vai descobrir e só assim enceta o seu verdadeiro (aqui sinónimo de feliz) percurso humano.



O GATO DAS BOTAS

Deserdado da sorte, só com um gato por herança, o filho mais novo do moleiro lamenta a triste sina que o passado lhe ofertou. Simpático e truão, malabarista de emoções, gato fiel e amigo domesticado, pede o gato ao seu amo que lhe confie o seu destino: botas e chapéu do “patrãozinho”, um saco às costas para a caça e ei-lo duplo do herói. Sagaz, cauteloso, brilhante caçador e excelente gestor da imagem do seu amo, realiza numa apurada estratégia de “marketing” a campanha de entronização do seu “Marquês de Carabás” no mais elevado trono do reino dos corações: casa-o com a filha do rei e endossa-lhe por artes mágicas o reino do Ogre velho, malvado satanás do povo que vinha oprimindo e vexando.
Mais sábio que o Ogre em manha e astúcia, levou-o de leão a rato que lhe foi cair no papo... “Cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém!” – dir-se-ia o Gato das Botas frente ao velho ogre enfunado de prosápia e arrogância...
Tem medo o Gato das Botas? Não tem medo, tem cautela e é como duplo do herói, com o traje humano deste, que realiza as tarefas que são da aprendizagem humana. Durante o tempo das “provas”, é o herói (“príncipe encantado” que visa o Amor) que se oculta na identidade desse gato que o ajuda, assumindo o lado mais animal (esperto, predador de instinto, ardiloso, traiçoeiro...); o filho do moleiro limita-se, entretanto, a ser surpreendido pelo bom termo das tarefas que o gato vai sabiamente planeando e vencendo.
O casamento do rapaz com a princesa deve-se não só à magia da mente, feita perspicácia e sagacidade felina, que consegue combater os adversários e aplanar os caminhos do futuro príncipe, mas também ao mistério de coração que une magicamente o herói - menino à sua princesa - consorte. É sempre obra da magia a sua sorte, mas é a magia do coração que ele sente e persegue que no fim o premeia e consorcia com a sua verdadeira herança de vida: o Amor.
O futuro príncipe é, neste contexto, o representante do homem tímido, da “criança” que não ousa, não sabe e teme aproximar-se do castelo de encantar, onde a sua vida pode enfim ganhar sentido: é no castelo - coração da mulher amada que ele tem de ser ajudado a entrar. A nudez do seu sentimento premeia a sua inocência infantil, mas o homem tímido que já é, carrega nos ombros a diferenciação social, o receio do ridículo, o medo da espera, a angústia do nada ou o da rejeição. É um homem – menino, um ser receoso e humilde, incapaz de ultrapassar sozinho as duras provas que a sociedade lhe impõe: ser “gato das botas” (astucioso, mentiroso, malabarista de ilusões...) até conseguir revelar-se como o consorte da princesa ou, por outras palavras, como um ser digno de sentir o Amor. Premeia-o o conto com a felicidade, secundarizando na mesma medida, as regras sociais que distanciam e punem os corações generosos que simplesmente se unem pelo amor que os rege.
Tem medo o filho do moleiro? Tem. E é premiado.
A crer nas palavras de Stith Thompson[4] há porém algumas versões em que, no final, a cabeça do gato é cortada e este regressa à forma original de príncipe, como se, durante um tempo, ele tivesse de assumir, “encantado”, uma identidade social oposta à do tímido filho do moleiro, deserdado e sem sorte. Assim sendo, torna-se mais evidente que o “Gato das Botas” não é mais que a exteriorização feita gato do não - tímido que o filho do moleiro necessita ser, se quer socialmente ascender e por essa via conseguir aquilo que lhe é de direito: a herança do Amor, pelo consórcio de coração com a princesa. Embora pareça abstrusa neste contexto a comparação, a verdade é que há semelhança por um lado entre o filho do moleiro e o marinheiro português das Descobertas que, temeroso e receoso, se deixam guiar e presentear finalmente pela intervenção mágica e divina: no primeiro, a do gato que fala, herança mítico - mágica do “tempo em que os animais falavam”; no segundo, a dos deuses olímpicos, herança greco-romana de deuses egoístas, interesseiros e poderosos, mas cuja acção na epopeia camoniana o presenteia com o sonho do Oriente. “Tricksters” de emoções, o gato que fala e os deuses olímpicos representam neste ensejo duas heranças míticas pagãs, mas um mesmo tronco comum: psicanaliticamente, poder-se-ia dizer que todo o ser humano traz em si inscrito este arcabuz de “artes e manhas” ou “artimanhas” – características dos nossos antepassados míticos – que o impede de ter medo e avançar em função de um objectivo de lucro ou poder. A luta que o ser humano, homem - menino ou homem de coração tem de travar consigo mesmo é, impedido de ser “deus”, deixar-se ajudar pelas forças do destino que o desejam presentear pela sua mais - valia de coração. Os deuses morrem, são substituídos: o gato é decapitado, como se a tarefa ingrata de conduzir pela mente o destino da criança se tivesse esgotado na substituição da ordem imposta pelo Ogre pela nova ordem que o Príncipe de Coração tem de resgatar e ajudar a implementar no mundo. Ser gato mágico trapaceiro e ardiloso ou deus clássico quezilento, ciumento e vingativo é etapa de crueldade para o coração, amordaçado pelo poder da mente que tudo faz, sabe, pode (e frequentemente consegue), para obter a denominada “realização pessoal”.
Tem medo o Gato das Botas ou, nas últimas versões referidas por Thompson, o Príncipe que ele é, ocultamente? Não tem, mas é cauteloso e consegue derrotar o outro deus: arcano da memória dos povos, o Ogre é o mais tirano do povo e é por isso que o gato - príncipe é premiado. Neste contexto, assume assim o papel social de libertador dos mais fracos (de que o filho do moleiro faz parte), que o reabilita em honra e glória aos olhos do verdadeiro rei daquele reino[5]. O único que realmente não tem medo e é, por isso, arrogante e tirano é o próprio ogre, força mágica brutal e selvagem, lídimo representante mítico das forças devoradoras do homem que só sucumbe à nova força mágica de um tempo mais doméstico, aqui representada pela sabedoria do “gato das Botas” que, sabiamente, o leva a metamorfosear-se em rato para depois o devorar. E é o ogre social, o “homem” que não tem medo e “devora”, que é verdadeiramente punido pelo conto tradicional, oferecendo o papel de herói libertador ao “gato mágico”, amigo fiel do ser humano e capaz de ajudar pela sua sabedoria de vida[6] o mais pobre filho de moleiro, cujo coração lhe permite também, por direito, ser príncipe de coração. E assim o casa o gato e o conto, claro está.


O HOMEM QUE BUSCA ESTREMECER

Começa o conto pela partida do herói. Deixa para trás o passado de aconchego – a sua “infância” de ser humano, na protecção da casa familiar – e parte rumo a si próprio: “Meu pai, dê-me o que me pertence, que eu cá vou viajar.” Esta busca de si-mesmo é, neste conto, bastante curiosa: quebrar o seu “fado” implica buscar “estremecer”, ter medo (“Dava-lhe o signo dele de ir passar muitas terras e não seria timorato, nunca teria medo a coisa nenhuma.”).
No percurso que enceta, enfrenta de imediato o que a qualquer ser humano provoca medo e terror: um fantasma que impede a família de habitar a sua casa (“andava lá um diabo estoirando dentro das casas”). O motivo do corpo que cai aos pedaços e aterroriza os visitantes serve aqui a busca de um herói que, entendemos depois, ainda não é humano e por isso enfrenta, sem medo, aquilo que de certa forma lhe é familiar: a força bruta, selvagem, indomesticada – alfobre de tiranos, memória de ogres e titãs, terror religioso medieval (“diabo”, “medo”). É esta força psíquica, caótica, que só se orienta pelo objectivo que o norteia (um “ideal” a cumprir, um “fim” em vista, um “sonho” a realizar) e que não é capaz de se humanizar, flexibilizando essa força em função dos objectivos que também norteiam o “outro” de si, que o herói do conto tem que combater. Como? Enfrentando a história do próprio “medo”, “diabo” do ser humano, que o impede de progredir em segurança na calma do que o conto oferece como solução antinómica: a paz familiar, a humildade e o agradecimento, a convivência pacífica no seio do “feminino” (mãe e filha, que constituem este mundo harmonioso do coração, dos sentimentos e da partilha dos afectos).
Diz-lhe o fantasma, já em forma humana (resultado da intervenção humana do herói que “da parte de Deus” lhe pediu que unisse as várias partes do corpo que tinham caído), que “Eu sou o dono desta casa; possuía uma quinta alheia, que não me pertencia; se a minha mulher a não restituir, vou para o inferno e toda a minha família; se a restituir, vamos para o céu.” Este confronto entre o Bem e o Mal, psicomaquia arcaica que reside em cada ser humano, vai oferecer ao herói a possibilidade de tomar consciência da linha de fronteira existente entre o que é lícito e ilícito, entre o que no ser humano é de Deus e o que nele é do Diabo. Neste caso, o que a força bruta que o fantasma representa oferece ao herói é a consciência do que uma vida norteada por um sonho de bens materiais pode arrostar para o ser humano. O fantasma, “duplo” do herói, revela as consequências da sua irrupção no mundo: errância e cegueira na prossecução de um objectivo / ideal. Enquanto ser humano, conta o fantasma a memória de uma vida construída sobre a infelicidade alheia, mas também o arrependimento dos seus actos tresloucados e com consequências desastrosas para aqueles que amou / ama: a mulher e a filha. A reposição da ordem (“devolver o seu a seu dono”) trará a alegria à família e a anulação do fantasma enquanto entidade psíquica que destrói, corrói e provoca o caos e o terror naqueles que se deixam habitar por essa forma de estar e de ser (servirem-se dos outros) e mesmo naqueles que, alheios a essa forma de ser, se transformam em vítimas inocentes desse poder fantasmático (o da máscara da ordem, que é sempre um caos a breve, médio ou longo prazo). Nesta ordem de ideias se entendem a tirania social e a guerra psicológica, que se exercem sobre as mentes dos que teimam em ser iguais a si próprios e só assim podem progredir, felizes.
Sofre o herói? Não. Porquê? Porque ainda não tem medo, porque ainda não “estremeceu” com nada. E é o conhecimento do “medo”, do “estremecer”, que delimita no conto – parábola do ser humano – a fronteira entre o que ele está sendo e o que quer vir a ser; entre o destino / “fado” / “signo” e a vida nova que quer cumprir. Enfrenta o “fantasma” de si, o “outro” de si, aquele que rejeita em si e ajuda-o a salvar-se. Contudo, o herói nunca “estremece”[7] e a sua busca continua: “Quero ser solteiro”, responde ao pedido de casamento da filha do “fantasma”. Parece este episódio de confronto com o “diabo” não ter qualquer interesse para a mudança de destino que o herói persegue; contudo, é ao abrir a prenda que a referida moça lhe oferecera que ele, pela primeira vez, “estremece” e assim cumpre o seu objectivo: ser homem igual aos outros e, ironia do destino, ele que rejeitara o consórcio com a rapariga, vai agora pedi-la em casamento e, claro, ser feliz com ela.
Como se opera simbolicamente esta transmutação psíquica? Ao abrir a oferta (“um casal de pombas fechadas num gigo”), as pombas esvoaçam(-no) e ele, surpreendido, “estremece” e cumpre assim a sua demanda: como se, de repente, o seu “gigo”- coração sempre fechado fosse aberto pela chave do Amor saído da ternura, bondade e agradecimento da jovem moça a quem ele resgatara o seu destino e o de toda a sua família. Ele e ela, duas pombas (símbolo frequente das “almas”) unidas em coração. Deste “estremecimento” de amor, várias consequências para o herói / ser humano: abandona o seu “fado”, rejeitando a vida de errância e de “trinca-fortes” e fixa-se, pelo casamento, no mundo pacífico da família e do coração da casa. Só com o casamento acorda, “estremece”, ganha medo: toma consciência do Outro e do Amor. Assim se completa como ser humano e é feliz.

Desta versão de “conto de fadas” que nos é oferecida na antologia de Adolfo Coelho, encontramos eco em outras versões através do motivo das “pombas”/”pássaro” (V251, V293). Contudo, nestas, o herói continua a ser o “trinca - fortes” social, que acrescenta à sua ascese/aprendizagem mais este episódio que fará as delícias dos seus conterrâneos (sociedade patriarcal/masculina, centrada sobre o egocentrismo do seu “fazer” e que vive na interdependência de um feminino, também ele arcaico, sem voz). Neste mesmo tipo de sociedade poderão ser inseridas as outras versões de Vasconcellos. Em V171, o herói, após recolher o dinheiro que lhe cabe da sua luta com o “fantasma” , serve - se deste episódio para vencer a “princesa que só casa com aquele que lhe coloque uma adivinha a que ela não saiba responder”. O herói vence-a, pois ela não sabe justificar uma razão do “humano”: por que razão ele rejeitara a parte do dinheiro pertencente ao fantasma. Com efeito, este mau carácter da princesa será aprofundado pela encenação de adultério, que levará o herói social a abandoná-la. V251 e V256 apresentam-nos o “soldado” / ”militar” , cujo percurso de aprendizagem se diz na guerra e V292 traz à tona um “salvador do povo”, “homem valente” que erradica da sociedade os medos ancestrais antropomorfizados no episódio do fantasma que cai aos pedaços.
No feminino, surge a versão V294, onde a heroína é uma “Velha”, cuja sageza ancestral evita o ludíbrio social, antropomorfizado na figura do “mouro” , asceta do dinheiro, que a atrai à sua “mina”... A velha, que obviamente desconhece o medo, consegue ludibriar o “ludibriador” e rouba-lhe o dinheiro que a lenda repõe depois, como tendo sido aplicado em obra social: edificação do Hospital de Santarém.

Do ponto de vista psico - analítico, o conto do “Homem que Busca Estremecer” apresenta-nos três etapas de auto - reconhecimento da sociedade humana:
· Sociedade pacífica, mas de “subsistência onírica”, visto que se basta a si-própria nas recordações de um passado de “caça” e outros “troféus”. Centrada sobre si própria, nela estiolarão os novos filhos, sementes de um mundo novo que se dirá em outras sociedades. O seu herói é o “fanfarrão”, velho “trickster” arruaceiro, já esquecido dos tempos mágicos dos “gatos das botas” em que ser “Trickster” era ser verdadeiro (justo) com a sociedade que rejeitava os seus melhores filhos.
· Fora da sociedade guerreira, subsiste ainda outro tipo de herói: o “filho” da mãe (solteira, viúva, divorciada) que deixa amorosamente o filho partir para encontrar o seu destino, mas o espera sempre de regresso ao lar. É uma sociedade pacífica, que alberga naturalmente e em franco convívio não só os guerreiros que partem em prol da defesa da sua própria terra, mas também das mães que em anseio os esperam para todos subsistirem harmoniosamente no seio da comunidade que assim os acolhe e recolhe (cf. versão de Alexandrino).
· Finalmente, encontramos a sociedade que se renova pelos filhos de uma nova geração já sonhada em amor fora da própria sociedade de subsistência (e, neste caso, a consideramos endogâmica), através de um casamento de amor entre o herói e a amada que, fulgurantemente, o “estremece” por dentro e a ambos faz sorrir em destino. Foi a esta sociedade que mais espaço ofertámos nesta análise, a partir de um estudo mais detalhado da versão de Adolfo Coelho, e que configura afinal o universo da realidade dos “contos de fadas” com que todos fomos embalados na infância.


CONCLUSÃO

O primeiro herói (“Gato das Botas[8]”, “Psyché em pena” ou vulgar filho de moleiro), bem como o segundo (“Homem que deseja estremecer”) revelam-nos na sageza dos textos em análise que o seu caminho é sempre o de uma busca da felicidade individual, mediatizada pelo enfrentamento racional das regras que a sociedade humana lhes propõe e impõe.
Em termos humanos, ambos casam (ou se harmonizam socialmente), ambos são felizes, ambos se afastam dos comparsas - adjuvantes da sua peregrinação interior (gato e “diabo”): morre o gato (em algumas versões) e transforma-se no príncipe ou vive como nababo na corte do rei, findo já o seu papel de Trickster matreiro, sedutor e espertalhão que vence as barreiras sociais que o impedem de chegar ao amor; desaparece o diabo e, com ele, a corrupção das almas pelo dinheiro, pela cobiça, pelos meros prazeres sociais e fica o homem, finalmente, capaz de “estremecer” pelo “inesperado” frente ao “novo”. Quem os vence? O Amor. Quem vence? Os Heróis. Quem os segue? A eterna criança que há em nós e sabe que, só com um percurso de vida completo, se pode avaliar da raiz de sermos com os outros o melhor de nós mesmos: luta pela justiça social, pela paz dos corações, pela vida utópica e acrónica onde a raiz do medo velho se estiolou e só a nova raiz do medo (o esvoaçar brando do amor) ou os receios inerentes a essa aprendizagem que no conto se diz “casamento”, pode ainda fortalecer-se em sementes e frutos que ajudem a sociedade a “crescer”.
Como fio humano percorrendo a trama das histórias, encontramos, pois, a raiz do medo: da arrogância, à cautela, ao “estremecer” de alma. Labirintos e caminhos. Vidas. Vidas consagradas pelo tempo em contos que esculpem a memória da humanidade, devolvendo-nos a arte da magia do coração que é perene no tempo da Criança que todo o ser humano quer em si conservar e educar. Neles (contos/labirintos/destinos), o Adulto se refrega e se espelha para se encontrar em herói. Como ser incompleto, sempre em demanda de si e do seu melhor, aprende – às vezes bem a custo – a lição breve da simplicidade e da verdade: quem me ama, ajuda-me; quem me rejeita, impede-me de ser o que procuro (o que já sou em busca).
Simples e verdadeiro, como qualquer lição de vida que a mestra que esta é nos ajuda a ajustar, o conto é também ele um sábio artesão nos seus ajustes: morrem os oponentes, se o herói acorda e se deixa presentear pelo Amor que o ajusta ao sonho de ser feliz.
“Quero estremecer”: enfrento o fantasma da tirania e aprendo que “eu não sou ele”; já “acordado”, o herói é presenteado pelo destino e termina a sua busca.
“Quero ser feliz”: criança perdida, confio no outro de mim (“gato das botas” / “padrinho”/ “esposa”) e deixo-me ajudar e presentear pelo destino. Sou ainda o “príncipe encantado” das belas “fadas – consortes”, cujo reino povoa a imaginação do mundo.
Quanto ao “medo” ou ao “estremecer”, parece que quem o não sente, o procura e só o procura quem ainda não é humano.
Fronteira psíquica que é necessário conhecer e transpôr, o medo é amigo da cautela e inimigo da temeridade. Breve acordar de vida, é esperança de harmonia entre o que somos (estamos sendo) connosco e com os outros de nós.
Sempre em lições de vida, o homem conta (-se) no conto que ouve, lê, recria e sonha: “estremece” e “fada-se” em escrita.


BIBLIOGRAFIA UTILIZADA:
COELHO, Adolfo (1985), Contos Populares Portugueses, D. Quixote, Lisboa
COOPER, Alice (1983), Fairy Tales, The Aquarian Press, Wellingborough, Northamptonshire
DELUMEAU, Jean (1978), La Peur en Occident, Fayard, Paris
FONTINHA, António (1997),Contos Populares Portugueses ouvidos e contados no Concelho de Palmela, Câmara Municipal de Palmela
GRIMM, Jacob et Wilhelm (1986), Contes I, Flammarion, Paris
PERRAULT, Charles (2001), O Gato das Botas, “Contos Clássicos” 1, reescrita e adaptação de Margarida Braga, Papa-Letras, Lisboa
SOROMENHO, Alda da Silva e Paulo Caratão (1986), Contos Populares Portugueses, II, Centro de Estudos Geográficos, I.N.I.C., Lisboa
THOMPSON, Stith (1977), The Folktale, University of California Press
VASCONCELLOS, José Leite de (1963) Contos Populares e Lendas I, Coimbra
A Tradição (1997), Câmara Municipal de Serpa, 2ª edição em fac-símile
João Sem Medo, “Contos de Sempre” (1988), traducão de Espirídia Viterbo e adaptação à Língua Portuguesa por Isabel Patrícia e Martins da Rocha, EDINTER, Porto


RESUMO

Confrontados perante a figuração do medo, o “Gato das Botas” e “O Homem que Busca Estremecer” encenam duas etapas do conhecimento humano na sua relação com a comunidade de origem.
Privado do seu estatuto filial, o filho mais novo do moleiro enceta um percurso de conhecimento que o leva, através da ajuda do “gato mágico” (duplo do herói) ao que nele é origem de abandono: preterido na herança familiar, terá de ultrapassar pela astúcia/inteligência as forças telúrico-mágicas que são condensadas na figura sobre-humana do “ogre” social e onírico.
Quanto a “O Homem que Busca Estremecer”, o seu percurso de conhecimento humano corresponde ao esvoaçar de alma que lhe é peculiar e o torna herdeiro legítimo de uma nova sociedade que sonha libertar-se dos “ogres” circunstanciais do tempo civilizacional que cada versão encena. Assim sendo, o herói – libertador guerreiro de umas versões dá lugar ao filho estremoso de uma sociedade pacífica para, em outras versões (que privilegiámos na análise) se encontrar definitivamente na esfera social, através do percurso de Amor que lhe traz um casamento promissor de novos filhos que, esses sim, poderão revivificar e reunir em si as virtualidades oníricas das três sociedades atrás aludidas: a Força do guerreiro, o Amor filial, o Sonho de futuro. Três sociedades: três heróis. A cada uma, o herói necessário no momento histórico-civilizacional que cada versão encena.
A ambos os contos preside um mesmo veio de Amor: encontrar pelo Medo o percurso que nos leva, enquanto seres humanos, do “tremer” ao “estremecer”. Em sintonia com o primeiro “conto” do universo.

[1] 545B Puss in Boots:
Ø Pedroso (RH XIV 1906), 163
Fontinha 1997, 119-120
Ø Soromenho 1984, # 28
Soromenho 1986, # 652
Ø Fontes (New England), # 76

326 The Youth who wanted to Learn what Fear is:
Coelho 1985, # XXXVII
Vasconcellos 1963, # 251
Vasconcellos 1963, # 252
Vasconcellos 1963, # 256
ŊVasconcellos 1963, # 292
Vasconcellos 1963, # 293
ŊVasconcellos 1963, # 294
Ø Fontes 1975, # 9
Ø Enes (Bol. Inst. Da Ilha Terceira VIII), 69-75
Ø Soromenho 1984, # 147
Alexandrino (A Tradição II 1900), 29-30; 45-46
ŊFontinha 1997, 115-116

Nota: o índice das versões portuguesas aqui apresentadas foi-nos gentilmente cedido pela directora da revista ELO, professora Isabel Cardigos, a quem muito agradecemos, e ao qual tomámos a liberdade de acrescentar as versões assinaladas com Ŋ. As versões assinaladas com Ø não foram por nós consultadas.
[2] Cf., por exemplo, João sem-medo, Edinter, 1988
[3] com efeito, não nos parece ajustada a teoria que vê no conto um “mito degradado” mas, antes pelo contrário, sendo de filiação mítica, herdeiro portanto de um a utopia e de uma acronia, o conto é a evolução certa e ajustada num determinado tempo e num determinado espaço psicossocial da verdade maior que o mito encerra (ascese ou aprendizagem necessária ao género humano para evoluir). Neste sentido se cristaliza em versões várias, sempre reajustável a outras formas de ascese (cristalizadas em outros contos, herdeiros mitico-temporais de uma determinada civilização), re-criando novas versões com as suas possíveis e civilizacionalmente ajustáveis variantes.
[4] “At the end, the cat’s head is cut off and thus the enchantment is broken, so that he returns to his original form as a prince.” (Thompson, 1977: 58)
[5] Como em David e Golias, é no mais fraco que reside a força. Da fraqueza (que nunca é cobardia) faz coragem ( que nunca é temeridade). Vence pela astúcia, vulgo inteligência e até criatividade, a força bruta que o desafia. E é sempre a “criança”, que cada ser humano também é, que leva a bom termo a tarefa de fazer justiça, como se mais não fosse que um instrumento da própria magia universal: a da Harmonia de cada ser consigo mesmo e também com o outro de si (no filho do moleiro e também no Gato das Botas). Como refere Alice Cooper, “The Trickster differs from children who outwit ogres, witches and evil powers. Here innocence exerts its natural protection, while the Trickster uses ruses and intelligence to circumvent difficulties and pitfalls; but both exemplify situations in which the weak outwits the strong.” (Cooper, 1983: 94)

[6] “When [the Trickster] has an altruistic motive for his actions he represents the evolution of the individual from the chaotic and amoral unconscious to responsible consciousness.” (Cooper, 1983: 95) (itálico nosso)
[7] Na versão de Grimm, Histoire d’un qui s’en alla pour apprendre le tremblement, o herói é sujeito a uma panóplia de provas (pp. 26 - 35) com seres do “outro mundo” num crescendo de horrores e torturas psíquicas, para um ser humano dito “normal”. Nesta versão, o rapaz casa com a filha do rei e só aprende o “estremecer” quando a esposa lhe lança em cima “um balde de água fria” (“La nuit même, tandis que le jeune roi dormait, la princesse eut soin de le découvrir en rejetant les couvertures, puis elle l’inonda de l’eau froide du seau où frétillaient les goujons”, p. 36). Idêntica solução nos oferece a versão escrita para português de João Sem Medo (1988). É, portanto, o inesperado que lhe oferta o que ele tanto procura. Que seja a mulher a artesã deste inesperado é facto também encenado no “coup de foudre” que o herói sente pela “senhora das pombas”, em outras versões.
[8] As botas, como símbolo do ordálio do herói, remetem-nos para as “Botas de Sete Léguas” que o herói tem de calçar para percorrer os caminhos do mundo ou nos “sapatos de ferro” que a deusa Vénus faz calçar a Psyché para a obrigar a amar o filho, Eros (ou, homologamente, o príncipe-animal faz gastar à noiva que o ultraja e abandona).