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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Padeira de Aljubarrota...



Bem diz o poeta: "O mito é o nada que é tudo..."... Hoje, vi o da nossa "Padeira de Aljubarrota" actualizado num dos recorrentes "fait divers" dos jornais diários... Trocam-se os invasores por assaltantes, a pá do forno pelo balde de lixívia e eis um mito de final feliz, viajando mais de 600 anos: se os políticos não sustêm a "horda" de meliantes, há sempre uma Brites à espreita, possessa da justiça do passado, capaz de os suster e advertir... A gente nem sabe como faz, faz!... Confesso que sorri, finalmente. Às vezes vale a pena perceber por que razão o mito não morre e é parente de tanta história tradicional e das tantas que entretecem o nosso quotidiano!...
http://www.correiomanha.pt/noticia.aspx?contentid=6935FE8F-CAC3-4212-8CE9-B68E830EA120&channelid=00000010-0000-0000-0000-000000000010

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Branca de Neve e os 7 anões

BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES

Quando regressei a casa já não havia ninguém. Meu pai fora-se ultrajar com a minha madrasta e, como é habitual nestas histórias “madrasta entrada, filha molestada”. Só que entrar numa casa vazia, onde os móveis poeirentos nos lembram agonias, os sonhos das aranhas povoam a cómoda vazia e por dentro de nós só subsiste a vontade de um abrigo, é um pouco duro... Pano do pó em riste, água e aspirador prontos, a força da Mãe por dentro, limpa Branca de Neve o seu novo apartamento...


“Quem me quer bem, meu bem, me ama ainda mais
Quem me quer mal, meu Pai, me faz comer o sal...
Oooh oooh óóóh........................
Menina bonita, com cara de anjo, vem aqui comigo,
Traz a mim um sonho
Vem, fadinha linda, traz o teu encanto
Vem comigo sempre, mitigar o pranto...
Óóóóóóóóóh!...”

Bela como sempre e com flores de harmonia no canto, tudo o que na casa havia de poeira e agonia se afastou do apartamento. Limpa por dentro e por fora, a nova casa do amor da Senhora que ela era já, ficou pronta e sossegada.
No silêncio da floresta, só o canto dos pássaros a saudava. Saltitante e feliz, a borboleta adejava ao som da sua música e até os cogumelos com que ela se encantara, se vestiram de cores pintalgadas e se anelaram por dentro.


“Quem me quer bem, meu bem
O meu coração tem!
Vem, vem, vem!...”

Cantava a floresta com ela o seu sonho de verdade... A Primavera era tarda por vezes, mas a música da floresta era sábia de séculos e suturava as feridas das plantas inchadas pelo Inverno rigoroso. A pouco e pouco, também os filhotes das mais velhas plantas do Inverno ganharam força e sorriram à luz do sol que se avizinhava a pouco e pouco e de mansinho da nova casa da floresta, já limpa e arrumada para receber alguns hóspedes. Estava a Branca de Neve com o seu espelho de amor por dentro, quando com fragor e arrogância, é acordada por uma voz cavernosa e inchada, toda ela avermelhada num nariz de anão empertigado:
Narigudo - Quem és tu, ó criatura do Bem, que me arrumaste a casa e a limpaste, sem saberes quem era o dono?
B. N. - Como diz, senhor anão Narigudo? Eu sou a Branca de Neve florida. Desci do Inverno despida de alegria e aqui encontrei um pouco de fantasia...
N - Fantasia, minha cara menina? Um anão não sabe o que isso é! Não a quero cá, nesta minha casa... minha, não, nossa, que isto é só uma casa de irmãos. Quem a mandou fantasiar a nossa maneira de habitar?
B. N. - Desculpe, senhor anão, eu só quis ajudar!...
Refilão – Por mil raios e coriscos, que eu não acredito nisto, meu irmão Narigudo! Quem é esta nojentona irritadiça e maldosa que nos ocupou a roça? Isto é uma casa de trabalho... Rua, rua, com a sua fantasia!...
N – Refilão, cala-te, por favor. Ela também é filha do Senhor. Deixa-a acalmar, para ver se deixa de chorar...
B. N. – Desculpem, desculpem, por favor... Eu só queria descansar...
R – Bom, cala-te lá com essa baba e ranho, que eu sou um homem de antanho e não gosto de lamechices... Veste aí uma trapalhice qualquer e deixa-te de fantasias!...
B. N. – Posso ficar?
N. e R. – Podes, mas só hoje.
B. N. – Obrigada, obrigada, senhores anões!...
Chegam entretanto os cinco irmãos que, à voz do comando do Refilão, se sustiveram no passo:
R – Pançudo, Orelhudo, Descorado, Virtuoso e Poeta... Estugar o passo! Toca a dormir... Cada um para a sua toca, que hoje o Narigudo não encontrou caça para nós.
P – Eu só comi uma lagarta – diz o Pançudo ao Orelhudo.
O – E eu só ouvi as asas do grilo a bater na minha barriga – constatou o Orelhudo.
D – Ai que eu desmaio, ai que me vou – titubeia o Descorado.
Virtuoso e Poeta, com a fantasia à perna, dirigem-se para o leito. Era uma pequena e fofa toca para anões onde nunca faltava a fantasia... De olhos semi-cerrados – que os anões nunca dormem realmente – deixaram-se balançar pelos véus do seu sustento... Virtuoso, cheio da poesia do irmão por dentro, viu-se por dentro da sua barriguinha onde só encontrou harpejos de alegria

“Quem me quer bem, meu bem,
É quem me sustém....
Òóóóóóóóóh!”

V – Ó quanta melancolia na voz, ó minha avó! Que tem meu irmão poeta?
- É um sonhador invertebrado... Sustenta-se das asas com que voa. Tanto vive em Lisboa, como no prado da sua imaginação! Deixa-o dormir!

Ao lado do Poeta, Virtuoso ressonava. Farto de esperar pelo toque da sineta que os impelia para o trabalho, a anão Virtuoso despertou, abanou o irmão Poeta e como este nunca mais acordava, deu-lhe um valente safanão, o que fez com que este despertasse o Refilão que, com a sua voz de trovão, cornetou os outros todos:
- Toca a levantar! Marcheee!...
Branca de Neve, medrosa, nem um pouco se mexeu. Talvez se esquecessem dela... e com o rosa-chá das faces que encantavam as madrugadas de Fevereiro, ficou ali amarelinha de medo.
B. N. – Queres ver que se esqueceram de mim, ó minha Mãe do Céu, que me protegeste mais uma vez... Se não fora a minha tez se manchar de rosa-chá, eu já não estaria cá!
- Tem cuidado, Branca de Neve, que o anão Narigudo é o mais empertigado... É que se ele te cheira e te encontra por cá...
B. N. – Eu lhes faço um chá de rosas, minha Mãe Celestial...
- Como queiras, Branca de Neve...
Farta de florir nas faces da menina, a rosa-chá foi florir para o jardim, onde encontrou uma multidão de avezinhas que a floriram ainda mais. Toda a floresta desperta se encantou com a rosa-chá. É que ela não era de cá e nesta floresta amena, só a açucena floria por alturas de Fevereiro...
Carapinhas de rosas, pequeninas e ternurentas se enovelaram pelas narinas do anão Narigudo.
N – Cheira-me a mel! Cheira-me a mel, Refilão!... É por aqui, pela floresta mais densa... Por aqui, por aqui...
Todos à uma, que os anões irmãos andam sempre unidos, dirigem-se como formigas atrás do anão Narigudo.
- Mel! Mel Mel!... Comida, finalmente! Comidinha... – e Pançudo esfregava a rotunda pança numa autêntica dança.

“Quem me quer bem, meu bem,
É que me sustém!...”
O – Ah, já sei! É a filha do Rei da Floresta que decidiu abrir o pote! – diz o Orelhudo.
V – Calma, meus irmãos, que a virtude de Salomão nos ensina que
“Mel, se o achares, come o que baste, não te sacies,
senão depois talvez te enjoes e agonies” – acudiu o Virtuoso.
- Em tempos que já lá vão, eu não era vosso irmão. Por que razão, ó minha imaginação, tenho eu de aguentar este Descorado mesquinho, que nunca vê no caminho nada mais que um porco-espinho? Cala-te, solteirão maldito, que o mel de Branca de Neve é tão doce e tão certeiro, que nenhum de nós fica solteiro! É ela a nossa rainha!....
R – À uma p’ra casa! Marcheee!... – vocifera o Refilão.
Cheirosa e arrumada, com a casa do torvelinho toda lavada e vistosa, a bela rainha sorria.
B. N. – Eu sou a Branca de Neve, rainha do vosso cheiro, modéstia do vosso mando, mel dos vossos corações, música dos vossos ouvidos, vossa saúde e bem-estar, asas do amor eterno e poesia fraterna... Sou vossa amiga e rainha....Quereis-me vós aceitar?
Um a um, os anões soluçavam e, arrependidos, pediam a Branca de Neve que nunca mais os deixasse... A Rainha-Mãe Celestial sorria nas faces rosa-chá da sua filha querida.
Tontos de alegria e levados pelo mel da sua imaginação, encostaram o coração ao da rainha Branca de Neve e viveram séculos e séculos, enternecidos e amenos.
Casada e feliz com os sete anões servidores, a vida de Brance de Neve decorria calma e serena, sem qualquer desaconchego. Um dia, o Medo regressou.
- Madrasta molesta eu sou. Ainda vives, energúmena?
Um silêncio maior percorreu a floresta. Calma e serena, Branca de Neve esperou que a nuvem negra se afastasse no céu limpo. A chuva caiu depois: breve, mansa também e aligeirando as muitas flores que perfumavam a floresta.
- Como sois bela, Branca de Neve, e como é leve o vosso desejo de bondade. Amastes a vossa madrasta?
Branca de Neve sorriu. Afinal, aquela velhinha tonta que a confiscara ao seu pai, não era mais que uma nuvem, negra e densa decerto, mas que com o caminho certo que ela conseguira traçar, a conseguira afastar... Velha madrasta do espírito, a que tivera de enfrentar! Casara-a ela com a chuva mansa e breve do seu ser. Era ainda uma menina e já sabia prever que as nuvens densas do céu que de negro se revestem são sonhos maus para o ventre da terra que quer ser fértil. Foi um sonho derradeiro – ou seria um pesadelo? – aquele que ela enfrentara. Rainha do Céu e Terra era a Mãe que a ofertava ao serviço dos anões e porque soube servir sem a capa e espada dos homens, se viu de novo servir em alegria e bondade. É hoje poeta amena, gosta de servir tão bem que às vezes na pena da esferográfica que tem por dentro do computador, se lhe desperta a harmonia das vozes que a conceberam: vozes da Terra e do Céu? Vozes da desarmonia? A voz que sai do silêncio é sempre a mais desejada. Voz da Mãe que a consagrou no serviço à floresta foi só um sonho feliz ou não passou de uma sesta ao luar da fantasia? É Rainha da Harmonia a Branca de Neve florida que em qualquer estação dos tempos que nos povoam, nos traz paz e harmonia e se desenha em Lisboa ou outra cidade assim. Floresce em qualquer jardim, é a rosa-chá da bondade. Por cima, o céu estrelado lhe diria que é Janeiro; por dentro, sabe que não. Sabe que em qualquer estação do tempo que já não há, houve uma fada tranquila que por ser velha e, com sabedoria, Ter sabido despertar o amor dos seus anões, se devolveu a si própria e se encontrou com o Amor da Rainha que nos dá o mel melhor para a vida: sorrir é florir sempre.

E se quiserem ofertar outro fim a esta história, terão de ir à memória do vosso computador e relembrar o encanto a que ela se rendeu, quando bem mais velha e sábia, um príncipe a recolheu do altar do pensamento. Mas porque essa é outra história de amor em mim consagrada, eu que sou vossa almofada no leito em que vos dormis, me devolvo de novo a mim e me faço de Arlequim e com uma nova pirueta, vos falo da Nau Catrineta. Querem? Sim?... Então, aí vai!

domingo, 25 de maio de 2008

D. Junquilho e Violeta



"- À beira do rio nascem

violetas ao comprido,

já me vieram dizer

que não queres casar comigo.



- Eu, casar contigo, sim,

mas por ora ainda não.

Amanhã, por estas horas,

te direi o sim ou não."



- Hoje é o amanhã de ontem

e já cá te vim buscar.

Trago-te um anel de junco

e uma coroa de toucar...

é juncada de violetas,

"há-o-as" roxas e amarelas,

p'ra que as doces borboletas

venham aqui rimar com elas.

Rimam as cores e os cheiros

e é sempre a Primavera

que te desenha sorrisos:

ficas igualzinha a elas!...


Eu, casar contigo, sim,

que me sinto borboleta

p'ra namorar o teu corpo

rescendendo a violeta.


-À beira do corpo nascem

violetas ao comprido,

já me vieram dizer

que já queres casar comigo...

Tens aqui o teu anel

também de juncos tecido

e um belo cinturão

remanescendo a junquilhos.



... Pôs-se o sol, foi-se sorrindo,

deixando mais um casal

embrulhadinho nos cheiros

do quentinho nupcial...



... E agora onde estarão

D. Junquilho e Violeta?

Já me vieram dizer

que "na brasa, de lambreta"...

segunda-feira, 19 de maio de 2008

CANTIGAS DE AMIGA

Rimance 1

Três voltas dei à tua saia nova
Três voltas dei e não me dão volta

Senhora florida, do meu coração
Teu seio me afunda em tanta aflição

Sonhei-te envolta em flores de alvura
Sonhei-te a ternura...

Quis ter-te por dentro de mim consagrada
Foste a minha amada...

Rimance 2

Três voltas tem a tua saia nova
Três donos já teve e não me faz moça

Floriste-a de novo, todinha para mim
Coseste-a com flores... te dei o cetim

A uma prenda bela nunca se diz não
Que ao coração da noiva florida
não vem o carmim, mas sim o despejo
Da fruta colhida...


Rimance 3
As nozes do cesto que me ofertaram
Já todas grelaram...

Bem as quis florir ali no jardim
Mas foram-se assim
que os grelos chegaram...
Lá se me ocultaram as nozes de mim !


Rimance 4

Quiseste comer a fruta mais doce
Morangos te dei...
Beijinhos de outrora que um dia me deste
Porque tos não dei?
Se um dia as amoras do teu silveiral
forem todas doces...
com uma compota te acolherei.


Rimance 5

Meninas solteiras se sonham despidas
À volta das avelaneiras floridas

Despidas das mães que às romarias
as levam velidas

Sonhadas pelo ventre que a alegria acolhe
a brisa as recolhe

Lavadas de novo nas camisas alvas
as espreita a alba
e a harmonia.

Rimance 6

Seu sirgo torcendo, em voz de harmonia
voava a amiga...

- Pardeus, meu amigo, que sonho antigo
te voou de mim?

E uma voz de espanto lhe segreda então:

- Avuitor comestes, que as asas de mim
Para ti não são...


Rimance 7

Estando eu contigo e tu não comigo
olhei para ti nas ondas do olvido...
Amigo traidor serias então
ou era a angústia do meu coração?

E as ondas bramindo em São Simeão
ficaram dormentes, disseram que não
que a verdade alheia que às ondas regressa
não regressa nunca para o coração...

Foi-se embora o mar. Ficou o olvido
e as ondas bramindo em São Simeão
são sonhos de aflitos, que em terra firme
estreitaram a amiga do seu coração.