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domingo, 1 de maio de 2011

Dia do Trabalhador ou Da Crise que se Repete ou De Quem não se Sente não é Filho de Boa Gente...


NÃO, NÃO, NÃO SUBSCREVO...

Não, não, não subscrevo, não assino
que a pouco e pouco tudo volte ao de antes,
como se golpes, contra-golpes, intentonas
(ou inventonas - armadilhas postas
da esquerda prá direita ou desta para aquela)
não fossem mais que preparar caminho
a parlamentos e governos que
irão secretamente pôr ramos de cravos
e não de rosas fatimosas mas de cravos
na tumba do profeta em Santa Comba,
enquanto pra salvar-se a inconomia
os empresários (ai que lindo termo,
com tudo o que de teatro nele soa)
irão voltar testas de ferro do
capitalismo que se usou de Portugal
para mão-de-obra barata dentro ou fora.
Tiveram todos culpa no chegar-se a isto:
infantilmente doentes de esquerdismo
e como sempre lendo nas cartilhas
que escritas fedem doutras realidades,
incompetentes competiram em
forçar revoluções, tomar poderes e tudo
numa ânsia de cadeiras, microfones,
a terra do vizinho, a casa dos ausentes,
e em moer do povo a paciência e os olhos
num exibir-se de redondas mesas
em televisas barbas de faláeia imensa.
E todos eram povo e em nome del' falavam,
ou escreviam intragáveis prosas
em que o calão barato e as ideias caras
se misturavam sem clareza alguma
(no fim das contas estilo Estado Novo
apenas traduzido num calão de insulto
ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo).
Prendeu-se gente a todos os pretextos,
conforme o vento, a raiva ou a denúncia,
ou simplesmente (ó manes de outro tempo)
o abocanhar patriótico dos tachos.
Paralisou-se a vida do pais no engano
de que os trabalhadores não devem trabalhar
senão em agitar-se em demandar salários
a que tinham direito mas sem que
houvesse produção com que pagá-los.
Até que um dia, à beira de uma guerra
civil (palavra cómica pois que
do lume os militares seriam quem tirava
para os civis a castanhinha assada),
tudo sumiu num aborto caricato
em que quase sem sangue ou risco de infecção
parteiras clandestinas apararam
no balde da cozinha um feto inexistente:
traindo-se uns aos outros ninguém tinha
(ó machos da porrada e do cacete)
realmente posto o membro na barriga
da pátria em perna aberta e lá deixado
semente que pegasse (o tempo todo
haviam-se exibido eufóricos de nus,
às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).
A isto se chegou. Foi criminoso?
Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião
do filme que as direitas desejavam,
em que como num jogo de xadrez a esquerda
iria dando passo a passo as peças todas.
É tarde e não adianta que se diga ainda
(como antes já se disse) que o povo resistiu
a ser iluminado, esclarecido, e feito
a enfiar contente a roupa já talhada.
Se muita gente reagiu violenta
(com as direitas assoprando as brasas)
é porque as lutas intestinas (termo
extremamente adequado ao caso)
dos esquerdismos competindo o permitiram.
Também não vale a pena que se lave
a roupa suja em público: já houve
suficiente lavar que todavia
(curioso ponto) nunca mostrou inteira
quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano
usada foi por tanto entusiasta,
devotamente adepto de continuar ao sol
(há conversões honestas, sim, ai quantos santos
não foram antes grandes pecadores).
E que fazer agora? Choro e lágrimas?
Meter avestruzmente a cabeça na areia?
Pactuar na supremíssima conversa
de conciliar a casa lusitana,
com todos aos beijinhos e aos abraços?
Ir ao jantar de gala em que o Caetano,
o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros,
hão-de tocar seus copos de champanhe?
Ir já fazendo a mala para exílios?
Ou preparar uma bagagem mínima
para voltar a ser-se clandestino usando
a técnica do mártir (tão trágica porque
permite a demissão de agir-se à luz do mundo,
e de intervir directamente em tudo)?
Mas como é clandestina tanta gente
que toda a gente sabe quem já seja?
Só há uma saída: a confissão
(honesta ou calculada) de que erraram todos,
e o esforço de mostrar ao povo (que
mais assustaram que educaram sempre)
quão tudo perde se vos perde a vós.
Revolução havia que fazer.
Conquistas há que não pode deixar-se
que se dissolvam no ar tecnocrata
do oportunismo à espreita de eleições.
Pode bem ser que a esquerda ainda as ganhe,
ou pode ser que as perca. Em qualquer caso,
que ao povo seja dito de uma vez
como nas suas mãos o seu destino está
e não no das sereias bem cantantes
(desde a mais alta antiguidade é conhecido
que essas senhoras são reaccionárias,
com profissão de atrair ao naufrágio
o navegante intrépido). Que a esquerda
nem grite, que está rouca, nem invente
as serenatas para que não tem jeito.
Mas firme avance, e reate os laços rotos
entre ela mesma e o povo (que não é
aqueles milhares de fiéis que se transportam
de camioneta de um lugar pró outro).
Democracia é isso: uma arte do diálogo
mesmo entre surdos. Socialismo à força
em que a democracia se realiza.
Há muito socialismo: a gente sabe,
e quem mais goste de uns que dos outros.
É tarde já para tratar do caso: agora
importa uma só coisa - defender
uma revolução que ainda não houve,
como as conquistas que chegou a haver
(mas ajustando-as francamente à lei
de uma equidade justa, rechaçando
o quanto de loucuras se incitaram
em nome de um poder que ninguém tinha).

E vamos ao que importa: refazer
um Portugal possível em que o povo
realmente mande sem que o só manejem,
e sem que a escravidão volte à socapa
entre a delícia de pagar uma hipoteca
da casa nunca nossa e o prazer
de ter um frigorifico e automóveis dois.
Ah, povo, povo, quanto te enganaram
sonhando os sonhos que desaprenderas!
E quanto te assustaram uns e outros,
com esses sonhos e com o medo deles!
E vós, políticos de ouro de lei ou borra,
guardai no bolso imagens de outras Franças,
ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas,
ou de Estados Unidos que não crêem
que latinada hispânica mereça
mais que caudilhos com contas na Suíça.
Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes
tão dividido entre si mesmo. Adiante.
Com tacto e com fineza. E com esperança.
E com um perdão que há que pedir ao povo.
E vós, ó militares, para o quartel
(sem que, no entanto, vos deixeis purgar
ao ponto de não serdes o que deveis ser:
garantes de uma ordem democrática
em que a direita não consiga nunca
ditar uma ordem sem democracia).
E tu, canção-mensagem, vai e diz
o que disseste a quem quiser ouvir-te.
E se os puristas da poesia te acusarem
de seres discursiva e não galante
em graças de invenção e de linguagem,
manda-os àquela parte. Não é tempo
para tratar de poéticas agora.

Jorge de Sena
(Santa Bárbara, Fev. 1976),  in Quarenta Anos de Servidão (1979)

ouvir o poema a seguir...



... E não me venham dizer que era o Jorge de Sena que tinha mau feitio... que  o raio  da crise  não sente nem é filha  de  (boa)  gente...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Revolução no Egipto

Quando se amordaça o sonho,

a revolução espreita...

e, ontem, aconteceu...

sábado, 25 de setembro de 2010

A crise ou do "gato branco na neve" ou do "sincelo" ou...

Passou-se quase 1 ano e eu às voltas com a "crise" em Portugal: escrevi, escrevinhei, seleccionei textos e poemas e que fale o passado dos que sabem por mim, que eu não consigo desafectar-me do espírito e da letra da coisa e como diz e dizia o povo sobre esta e outras crises "tantas vezes vai o cântaro à fonte que lá deixa a asa" e que cada um faça seu um significado possível desta máxima, aforisma e quase provérbio que nós, afinal, falamos sempre e só de nós, daquilo que nos encanta, sublima ou oprime (olha a crise já instalada na trilogia anterior: devia ser dita / escrita de trás para a frente e adeus crise!...)
Recuso-me a dar mais linguagem à dita cuja, que já tem demasiado tempo de antena nos telejornais, jornais e outros que tais instalados à mesa do café ou aos bons dias com que nos saudamos logo pela manhã já sabes que, leste, ouviste?... Ciao, então, beijinho, beijinho... tem um bom dia!...

Ou seja: já é Outono e uma aragem fina e ainda endorminhada pela noite anterior acorda-nos para a saudade do sol que não tarda a aparecer macio e leve pela manhã. E quando lhe pergunto interiormente pela crise sobre que devo escrever no meu abandonado blogue, só me devolve a imagem de um "gato branco na neve"...ou de um "brouillard sur la plaine d'Alsace"!...
Como já não tenho nenhuma das 2 imagens, vou utilizar o "Sincelo", fotografia da Carolina, no Inverno de 1993 em S. João da Pesqueira e que traduz bem o que eu gostava de deixar... um símbolo.

N. B.:"
Sincelo é um fenómeno meteorológico que acontece em situações de nevoeiro aliado a uma temperatura abaixo de 0ºC e resulta do congelamento das gotas de água em suspensão, quando estas entram em contacto com a superfície. Quando sob um nevoeiro muito denso, pode produzir o mesmo efeito que uma nevada e ocorrer a precipitação de cristais de gelo em pleno nevoeiro, sem haver nuvens no céu. Não deve ser confundido com geada. A película de gelo forma-se em qualquer superfície que contacte com a neblina, dando às folhas e caules das árvores uma aparência vítrea
." in Wikipedia

(há um problema com a imagem: é uma má foto da foto atrás referida. Se a conseguir, trá-la-ei para aqui. Fica o possível)

domingo, 15 de novembro de 2009

Face Oculta ou de como Um Lavrador tinha um Cão e a Mãe...

Na minha infância, deram-me como entretenimento e educação um exercício de português que nunca mais esqueci e que muito me tem servido pela vida fora; sem a pontuação correcta, o texto é um absurdo semântico, uma gargalhada feita frase: O lavrador tinha um cão e a mãe do lavrador era também o pai do cão
Tiveram de me dar a solução, que a tanto não chegava o meu entendimento / educação de criança. Mais tarde, aprendi a pontuar: quando percebi que a frase era uma estrutura lógica que reproduzia um pensamento arrumado... Desde aí, percebi que a chamada "gramática" era a "matemática da língua" e fui-me aplicando, treinando e divertindo com a infinidade (e provável infinitude) de sentidos que a nossa língua potencia. Gosto que Fernando Pessoa tenha escrito "A minha pátria é a língua portuguesa", mas gostaria que essa sua característica do Saber lhe conferisse também o Poder de nos dirigir... Por outras palavras, a face oculta deste verso de Pessoa podemos encontrá-la naquele outro de Camões onde, já aborrecido com os seus contemporâneos pela falta de cultura, vociferava que "... quem não sabe arte, não na estima" (e entenda-se "arte", claro, no sentido geral de "cultura")...
Como cidadã, aflige-me que a advertência de Camões não seja levada mais a sério! A menoridade a que a nossa língua aparece esporadicamente remetida, quando oriunda de altas instâncias do poder, faz-nos temer pelo estado da Nação, que corre o risco de mergulhar mais uma vez numa "austera, apagada e vil tristeza"...

E, já agora: o lavrador tinha mesmo 3 cães (o cão de quem se falava, mais a mãe e o pai desse cão)... Afinal, não se pode saber tudo e de tudo, mas há sempre alguém que nos ensina a encontrar a solução ideal ou mesmo correcta...

E agora dois exemplos desta "face oculta" da língua (ou da Nação de Camões e da Pátria de Pessoa?)

"...suspenção e não renuncia porque tal poderia ser entendida com assumpção de culpa."

"Caras e caros colegas
Faz hoje 4 Anos.
Tem dias que parece que o tempo se emaranhou nas coisas e nas pessoas.
Tem outros dias em que tudo parece ter ocorrido ontem.
Contudo há algo que o tempo tem os limites certos:
-Foram quatro anos bons de amizade, de solidariedade e de prazer de poder contar com o vosso profissionalismo e apoio."

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pós-autárquicas (Romanos, Gauleses e Lusos)

Cada um é como cada qual e eu não sou uma fã dos Romanos: deve correr em mim muito sangue celta, aparentado do Obélix (dói-me ver derrubar "carvalhos", rebolo-me a rir e a brincar com os "Ideiafix"...) e do Astérix (a ver se Panoramix me arranja uma "poção mágica" para combater os Romanos...) e de Viriato e de Sertório !.... A verdade é que, apesar de ser uma fã de Itália, não sou fã de Roma: aquela monumentalidade remanescente de um império de Césares atrofia-me o raciocínio, retira-me a linguagem espontânea e transporta-me a um mundo onde o poder é arrogância, a força é brutalidade, o riso é desnorteado e nervoso e a imaginação é delírio de grandeza a soldo de um extermínio progressivo da diferença. Em consonância com a monumentalidade da Roma antiga, o trânsito caótico de hoje em dia desconhece as cores dos semáforos ou qualquer regra que não seja a do "salve-se quem puder"!... Reafirmo que sou uma fã de Itália (Florença, Veneza, Ravena, sentido estético apurado e inovador que sempre me surpreende e desenha sorrisos), mas daquela veia "imperial" dos Césares temo-me como se devem ter temido todos os povos que os Romanos "romanizaram"... E a verdade é que ainda estou para perceber (ou não quero dar linguagem às minhas suposições) a razão porque, democraticamente, a Itália elege para o Parlamento a Cicciolina ou para o mais alto cargo da Nação o Berlusconi (que faria grande êxito numa ópera bufa ou no teatro burlesco com o nome de Burlesconi)... Encarar a política com "muito riso e pouco siso" dá, às vezes, nestas coisas!... Por cá, encaro com apreensão a "floresta de auto-estradas" que vai criando desertos a perder de vista e a estranha eleição (por democrática e escorada em "floresta de licenciados"), de autarcas a contas com a justiça nacional... Entristece-me e confrange-me ouvir das razões invocadas para estas preferências (ex: "os outros - os bancos, etc. - são ainda piores", como se não estivessem a falar dos mesmos) e do alardeado estado de espírito desta estranha figura de "réus vencedores": sempre estão "tranquilos", à espera que "provem" o de que os acusam (nada como ir para o poder, onde é mais fácil influenciar a legislação)... À conta deste "bem-estar" dos Césares, os Astérixes, Obélixes, Viriatos, Sertórios e outros que tal, vão sendo silenciados porque "intranquilos" e acusados de calúnia, perseguição e cabala (o que nunca se consegue "provar")... O que vai valendo são os "Gato Fedorento", que sempre têm uma linguagem de "verdade humorística" que vai dando voz a todos os que, silenciosos, temem transformar-se em "redutíveis Gauleses" ou "atraiçoados Lusitanos"...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Pós-europeias


É um afã mediático pós-eleitoral: ganhou a chamada esquerda, mas a direita não se resigna, já que ganhou na "Europa"... O que me vai afligindo é que a leitura que fazem dos resultados, mais do que uma reflexão sobre o que é necessário mudar, implica uma estratégia sobre como não deixar a dita esquerda chegar ao poder. Por mim, tanto voto no que eles chamam direita como na sua esquerda, habituada que estou já a ver estas palavras mais como um simulacro de ideologia para esgrimir ataques pessoais (quase sempre ressabiamentos, temores...) do que um conjunto de valores que têm de ser sistematicamente avaliados na prática para corresponder à dignidade do ser humano na sua relação intrapessoal, interpessoal e universal (entenda-se com o Universo, também no sentido científico). Por isto, o que me atrapalha é que, ao ver o afã com que a chamada "direita" quer abraçar o poder em consonância com outros países europeus, não consigo deixar de vislumbrar um inevitável crescimento futuro dos impostos para pagar os sucessivos "investimentos" que têm servido uma "cultura" do ócio, da competição e da desvalorização social do trabalho... Classe média? Qual? A que trabalha?... Muito perigoso: a futura (já no terreno) classe média pode ser a dos excelentes alunos com excelentes formações, mas completamente subordinados e empobrecidos economica e socialmente frente aos seus colegas de curso, irmãos e amigos que, entretanto, ascenderam a "cargos de chefia"!... Neste cenário, facilmente se concebe esta classe média a trabalhar... para QUEM?
(já agora... não, não falo ainda das nossas escolas... sai ainda mais amargo e estou muito farta de algumas palavras e expressões e com muito receio de quem as diz: "produtividade", "estou tranquilo", "provem...", etc. and so on... pensando bem, daqui a pouco já estou arrependida de escrever isto. Para já, fica!... Não há medo?... principalmente de pensar!...)

domingo, 31 de maio de 2009

Europeias


A uma semana das eleições europeias ainda não me decidi: votar "útil" ou "votar útil"? A verdade é que não me agrada ser gerida, governada, "marionetizada"... pelo mercado de Anja Merkel, pelo cáustico Sarkaustique, pelas bufonarias de Silvano Burlesconi ou pelo cinzento-acastanhado Gordon Brown ("brown" só "sugar"...)... quanto aos outros, nem os conheço bem... Além de que se se trata de Europeias, porque se não discute a Europa, o referendo?... Mas, claro, vou votar!... (nem que fosse em branco ou para anular, ia votar...)
(o texto fica assim mesmo: desengonçado na sintaxe, esperando que depois das eleições já tenha encontrado a sua estrutura correcta... esquecidos estes excessos de comando que acabam por nos enviesar a boa-disposição com que o sol nos saúda cada manhã...)

domingo, 15 de março de 2009

14 / 03: aniversário de Albert Einstein


"Uma pessoa inteligente resolve um problema, um sábio previne-o."

Albert Einstein


Fez ontem 130 anos o "menino" Albert Einstein... É melhor ouvi-lo a ele (através do link do "citador")


e vê-lo (num vídeo retirado do youtube)



... Eu continuo feliz por o "ir lendo" e o "ir vendo": dá-me calma.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

João Aguardela, um "guardador de rebanhos"


Há pessoas assim: encantadas pela surpresa das estações, pelo sorriso das almas, pela promessa de eternidade que a Vida desenha em cada segundo à nossa volta. Atentos, dizem de si e da sua forma agradecida de estar no mundo, criando... a partir de.

João Aguardela sonha o "Aboio" de Michel Giacometti, o "aboio" do "guardador de rebanhos" (que ele também é, à maneira de Caeiro).

Entristece-me que ele tenha partido e eu não conheça a sua obra, como merece. Ainda assim - e até ver - aqui fica o seu "Aboio".

domingo, 28 de dezembro de 2008

A morte saiu à rua...


Luto por uma pedagogia que não se esqueça que os rios susurram, que as aves gritam..., escreveu o professor, antes de encontrar a morte que saira à rua... Está num "post" do blogue Profavaliação, de que aqui deixo o link, bem como o da canção do Zeca Afonso que esse texto me fez recordar. Sobre o resto, não falo. Está tudo no texto de Teodoro Manuel e na letra da canção do Zeca Afonso.
http://www.profblog.org/2008/12/nossa-pedagogia-esqueceu-que-os-rios.html

http://www.youtube.com/watch?v=2yZkC3YCU20

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O que é um Professor?


Eduardo Lourenço define de uma forma simples e definitiva (para mim) o que é um Professor: o paradigma do cidadão útil e consciente de uma sociedade.

Numa altura em que tanto se fala deste grupo social é altura de o (re)definir, para que se saiba do que se fala quando se fala. E não há nada como ouvir quem está (de) fora, quem sabe, quem (se) pensa e quem não tem quaisquer interesses nas polémicas recentes, a não ser o de pensar o mundo e nos facilitar a vida pelo exercício do seu pensar. Como professora, fiquei-lhe mais uma vez agradecida por esta prenda de Natal.

Obrigada pela prenda, querido Professor! Quando for grande, também quero ser assim...

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Avaliações simplex de cotas...

Às vezes passa-se uma vida à procura da simplicidade (perdida?)... Tome-se uma criança em condição natural (amada e protegida pela "mãe") e surpreendamo-nos com a rapidez e beleza das suas aprendizagens: a gatinhar, andar, correr; a balbuciar, palrar, falar... Disse falar?!... É aí mesmo que quero chegar: não há criança que se não expresse em "poesia", com "metáforas" de descoberta permanente da necessidade de comunicar com quem a rodeia (a ama, claro!) e não há criança que se não revele "cientista": porquê, mas porquê...? Pobre professor-"mãe"! Que canseira tantos porquês e quanta admiração pelas descobertas que essas perguntas anunciam!... A "simplicidade de alma" é, por vezes, "chata" para quem "não está nem aí"!... Tenho revisto na RTP2 algumas conversas com o professor Agostinho da Silva e sinto-me reconciliada com o mundo! Tão perto e tão longe dele, mas... mesmo quando longe - o mesmo emaravilhamento pela "simplicidade" das soluções que apresenta: um adulto devia ser sempre um "sábio". Como ele. Quando eu for grande...

(mais prosaicamente e aqui que ninguém nos ouve: aqueles "sistemas de avaliação" muito complicados, muito complicados, tão complicados que apetece dizer logo "olhe, falou tão bem, que não percebi nada!", só podem estar errados! Continuo fiel ao Chomsky e à sua "Gramática Universal": sistema simples, capaz de explicar todas as línguas conhecidas, mas - claro! - com uma capacidade descritiva dependente ainda e muito e talvez sempre de cada "professor"... O que parece complicado pode ser bem simples... se houver uma "mãe", um "professor", um "sábio", uma "criança" que no-lo apresente com "amor" (ou sentido de "serviço", que é igual...), para sermos felizes (porque precisamos, gostamos, vai ser uma surpresa, nos vai convocar o silêncio ou a linguagem da "poesia", que pode ser um xi-coração bem apertadinho, bem apertadinho, obrigada, amo-te...).
Outra vez prosaicamente e aqui que ninguém nos ouve, aquela questão das "quotas" por mérito para professores, para mulheres em cargos políticos, etc..., parece-me um grande absurdo! Mas pode haver "quotas de mérito", antecipadamente subordinadas a percentagens?!... Então, não há mérito ou está-se a definir o "mérito", complicando e adulterando o que toda e qualquer criança sabe o que é... Mérito não é "mérito", é um somatório de "cargos", de...., 30, 40, os que forem precisos cursos de formação das "CEEs", etc., o que "dá jeito" às "finanças" da "nação"!!!... Porquê "mulheres" na política? São melhores que os homens? Querem esses cargos? Porque não "pretos", "amblíopes" ou outras minorias "silenciosas"? Como cidadã, nunca fui melhor "servida" por mulheres: se às vezes o fui, foi porque quem me "atendeu" estava "ao serviço" e não "a servir-se" de um "cargo"... Não, não gosto destas "quotas": "quotas de cotas")

E agora uma história "exemplar" de professores "cotados" (quotados?):
perante uma tese de mestrado a que tinha dado "Bom", a arguente quis justificar à mestranda o porquê de não atribuição de nota máxima: "O problema principal é que se valeu da sua facilidade de escrita para escrever uma tese que se lê como um livro... vê-se que não demorou tempo, que não analisou o suficiente...". Admirada, a aluna /mestranda/mestre só conseguiu balbuciar: "Mas a Professora quer que lhe traga as 500 páginas iniciais da tese que tenho em casa, onde está feita toda a análise que aqui lhe sintetizei em 100 páginas?!... Foi 1 ano para redigir 500 páginas de análise e mais 1 para sintetizar e simplificar a linguagem, em 100..." Resumindo e concluindo, a tese estava simples, mas não simplex e por isso não entrava nas quotas dos cotas... Sim, que às vezes a gente também se chateia!... Sobre "avaliações simplex" e "quotas de cotas", estamos conversados... Vou arranjar umas ilustrações simples e carinhosas ... Quando eu for grande...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

"Oh Portugal, hoje és nevoeiro..."

Quando era miúda, adorava este feriado: era "Dia da Mãe". Depois que foi transferido para o último domingo de Maio, o 8 de Dezembro foi ficando esvaziado para quem não tem uma prática católica, o que é o caso. Acontece que acabo por ler jornais e etcs e tais e quando dou por conta já estou quase a tiritar num inverno de alma: “jogos estratégicos”, “paraísos artificiais”, novas "dinastias" ... É melhor não explicitar nem especificar mais nada: peço emprestada a palavra ao poeta e lá desabafo um pouco.

Os medos

É a medo que escrevo. A medo penso.
A medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo
A medo me renego, me convenço

A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
De outros medos. A medo é que resvalo
O corpo escrutador, inquieto, tenso.

A medo durmo. A medo acordo. A medo
Invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.

A medo guardo confissão, segredo.
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo, mudo.

José Cutileiro Os medos, in Versos da mão esquerda, 1961.


ROMANCE DE REI HIPOTÉTICO

Na Tichunlândia há um rei
(se não há, podia haver)
que tem um iate de oiro
para nele se meter;
milhão e meio no bolso,
vinte milhões a render;
cem donzelas das mais lindas
pra amar a seu bel-prazer;
e um cadillac espanhol
(se não é, podia ser).
Muito mais tem esse rei,
muito mais podia ter.
Quem vai à frente da fila
não espera pela vez
e faz do tempo um cavalo
que monta conforme quer.
Dizem os bicos redondos
que andam na órbita dele
que tem uma inteligência
(se não tem, podia ter)
que penetra os escaninhos
mais recônditos do ser.
Milagre do sangue azul!
Oh prodígio do saber!
Oh fonte de sapiência
que não cessa de correr!
Um dia vieram reis
(mais viriam) para o ver,
estrela de ânsia na testa,
ansiosos de o conhecer.
Que o sol nele se desfolhava?
Como conseguia ele
a paz nas suas cidades,
há trinta anos e um mês?
Que serafim o giava?
Como consegfuia ele
não ter dentro do seu reino
um inimigo sequer?
Vejam ora o sucedido
(ou podia suceder).
Num opíparo banquete
(desses que está sempre a haver,
com ideias luminosas,
sem nenhuma luz se ver)
o rei que nunca aparecia
resolveu aparecer.
Oh! - disseram os que enchiam
o salão de lés a lés.
Cem polícias ali estavam,
sem pingalim nem boné,
mas um volume no bolso
que bem se sabe o que é.
Na boca de cada um,
pendurado um lamiré
e nos olhos todo o olhar
felino, fino do chefe.
Ninguém podia explicar,
ninguém podia entender
que, em duzentos olhos, só
um olhar pudesse haver.
De repente no salão
que havia de acontecer?
Como se fosse um relâmpago
ou o diabo por ele,
fez-se ali um jorro azul,
e começou a azulescer
e ficou tudo azulado
os reis e roques até.
Mil pessoas aí estavam
que ganhavam nova tez.
Zul, azul azulejava;
"Sobeja cousa de veer"!
Só no fundo do salão,
com os pulsos a tremer,
um jovem roía as unhas,
não parava de roer.
"Que faz aí, seu intruso?
Como se pôde atrever,
sem as vestes nupciais,
a quedar neste banquete?
Rua!, rua!, seu intruso!
Que descaramento é esse
de nem uma flor azul
ter ao menos no colete?!"
Prenderam-no, açoitaram-no,
deram-lhe fel a beber
e uma cruz de sete metros
mandaram logo fazer.
Entretanto o rei fulgia
e os demais, tal como ele.
E as estrelas não caíram
e o mundo não se desfez
e no firmamento o sol
prosseguiu no seu arder.

Este é o romance do rei
(irreal, está-se a ver).
Quem quiser tire a lição,
tire a que lhe convier.

António Cabral, in Quando o silêncio reverdece

Como dizia Fernando Pessoa, depois de lamentar o "nevoeiro" em Portugal: "É a hora!..." Enquanto sim e não, e agradecendo ao poeta esta chamada a uma outra realidade, decido ir ver o sol lá fora e passear um pouco nesta bonita tarde de fim de Outono. Lá fora é castanho e ouro e muito verde ainda... "É a hora!"

sábado, 6 de dezembro de 2008

Vieira avalia Pinóquio...


"Quem em tudo quer parecer maior, não é grande."

"Os modos de guerrear são tantos, quantos tem inventado o amor para a defesa própria, e o ódio para a ruína do inimigo."

"Posto que os juízes sejam rectos, ou o queiram parecer, é tal o enredo de testemunhos falsos, induzidos, e subornados, ou com o dinheiro, ou com o ódio, ou com o temor, ou com a dependência, ou com a lisonja, ou com tudo, que a mentira é a que vence e a falsidade a que triunfa."

"Se nos vendemos tão baratos, porque nos avaliamos tão caros?"

Padre António Vieira, Sermões

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Avaliação de Professores e "Legitimidade Democrática..."


Isto é um problema!... Eu que até gosto do ex-presidente Sampaio, tive hoje de o ouvir defender o Ministério e a sua actuação com o argumento da "legitimidade democrática" que pôs o PS no governo. À laia de desabafo, há duas perplexidades (preocupações?) que me obrigaram de novo a escrever:
- Será impressão minha, ou quando grandes dirigentes do nosso país começam a trabalhar no "estrangeiro" ganham uma nova forma (mais conciliadora de "Deus e Diabo em comunhão") de análise do processo político em Portugal? Acredito que "lá fora" seja outra a realidade, mas um pouco mais de tempo de permanência em Portugal e não creio que se aguente durante muito tempo esta "bonomia de análise"...
- Será cansaço e receio meu se este argumento da "legitimidade democrática do voto" permitiu por exemplo o acesso do nazismo ao poder e a sua manutenção (contra aqueles, inclusivé, que o tinham legitimado pelo voto)?...

(E, por favor, chega de especulações e mal-querenças, que eu não chamei nada a ninguém, etc., etc.... Que cansaço, todos esss atropelos de linguagem e raciocínio que por aí se vão fazendo...)

- Não decorrerá da "legitimidade democrática do voto" que, quando os eleitos, por se afastarem dos princípios ideológicos que os consagrou no governo da Nação, são "democraticamente" chamados à atenção (por manifestações, por exemplo) devem democraticamente recuar e, em nome desses princípios e de uma "pedagogia de poder" social, alterar as suas propostas de governação? A não ser assim, correríamos o risco de, um dia destes, sermos governados por uma "ditadura democraticamente eleita" e há que aprender com a História, em nome da Humanidade.

http://ww1.rtp.pt/noticias/index.php?headline=98&visual=25&article=376406&tema=28

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Avaliação de Professores - IV





Eu também tenho o meu "modelo de avaliação" preferido: o mais simples, o que mais confia nos professores, o que confere identidade a cada uma das escolas, o que prevê a "avaliação" rectificativa do funcionamento da escola, sempre que os seus resultados revelam problemas de aprendizagem nos exames a nível nacional; o que não pune, mas resolve, incentiva e dá condições; o que incentiva a criatividade, base do verdadeiro sucesso na vida, a todos os seus intervenientes... o que já provou - e todos os estudos o indicam - ser o de melhores resultados: o finlandês.



Não há professor que se não depare ao longo do seu percurso profissional com a subjectividade e falibilidade de todo e qualquer processo de avaliação. Como afirmou Leonardo da Vinci: "Não há coisa que mais nos engane do que o nosso juízo." (se é difícil avaliar alunos, como será avaliar colegas com maior e/ou diferente formação científica, maior experiência profissional?... ). É caso para nos perguntarmos com Dante Alighieri, no seu "Paraíso": "Quem és tu que queres julgar / com vista que só alcança um palmo, / coisas que estão a mil milhas?"





N. B. E quanto a professores de "Bom", "Muito Bom" e "Excelente", temo que os critérios sejam semelhantes aos que presidiram à selecção de professores titulares. Pergunto-me como e por quem seriam hoje avaliados/classificados professores como Vergílio Ferreira, António Gedeão ou Sebastião da Gama, por exemplo...

domingo, 16 de novembro de 2008

Avaliação de Professores - III


Finalmente, arranjei disposição para procurar informações sobre o sistema de ensino finlandês (sempre referido como o de melhores resultados) e o chileno (em que a actual e polémica avaliação de professores parece basear-se). Vale a pena confrontar os resultados da educação nos 2 países e a carreira dos professores em ambos (e a respectiva acaliação, claro!). Não há "avaliação de desempenho" na Finlândia... será que não há avaliação?!... Claro que há ( e mais não digo)... quanto ao Chile, vale a pena ver as políticas desastrosas aí seguidas, com consequências desastrosas para a Escola Pública e a Educação naquele país...


Perguntar não ofende:

1. mas afinal dão-nos como referência os resultados escolares da Finlândia e em vez de seguirmos a sua política, vamos "importar" a terceiro-mundista política chilena, com resultados comprovados de insucesso e péssimo "tratamento" dos docentes?!...

2. mas afinal regredimos agora para Esparta, onde os recém-nascidos doentes eram atirados para a morte dos muros da cidade para o seu exterior? Que é isto de penalizar professores e alunos que adoecem? Os doentes, agora, são "marginais" da "saudável" empresa pública em que o Estado se está a transformar?!...


N. B. (apetece dizer umas verdades: com tanto sofrimento infligido à sociedade - vidé desemprego, desautorização crescente das classes de professores, médicos e juízes, política ambiental - há mais que razões para se adoecer, infelizmente!). Que de uma vez por todas se entenda em sentido denotativo (e sem o humor desbragado e violento que esta política gera) que será bom que o Estado "nos trate da saúde".




sábado, 15 de novembro de 2008

Avaliação de professores - II


Tanta coisa para dizer e tão pouco o que sinto que, agora, devo escrever. Fica a referência a 2 intervenções de ontem, na TVI - jornal da noite -, que me deixaram mais calma e até acompanhada. Obrigada à Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária D. Maria, de Coimbra e a Vasco Pulido Valente. Ambos explicaram excelente e sucintamente o que se está a passar neste momento com a luta dos professores (mais focalizada na avaliação), nas entrevistas que deram à jornalista.
Acima de tudo: "Pela Dignidade da Profissão Docente"

N. B.
Estes nossos políticos não terão passado pela escola pública? Não têm filhos, sobrinhos, conhecidos, que tenham passado por lá? Todos frequentaram Universidades privadas? É que me indigna a falta de respeito para com aqueles que os formaram academicamente... Profissionalmente, já não sei, que "isto" decorre mais da "avaliação de desempenho", como sói dizer-se. Eles lá sabem como progrediram... Às vezes receio que, a ser coerentes com uma qualquer teoria científica em que acreditam, os legisladores façam tábua rasa de todo o seu passado e - cegos, surdos e mudos - às vozes que os alertam, sejam "fiéis" à sua nova "religião", esquecendo que a ciência é uma verdade até prova científica em contrário e que tem de estar sempre ao serviço da "Humanidade". Um dos "slogans" bem elucidativos das preocupações que devem nortear o legislador e das consequências desta legislação está bem patente num aflitivo e verdadeiro "slogan" destas manifestações: "Deixem-nos viver!". Visto a camisola do ensino público, a quem devo muito do que sou e aos muitos professores que aí me formaram, incentivaram, testaram e avaliaram para, no fim, me dizerem: "Vai viver e sê feliz"!... Este, sim, foi o grande Objectivo que eles alcançaram comigo, mesmo que, nunca o tenham assim definido, nas suas práticas lectivas. É que a Escola é a Casa também.